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REENCARNAÇÃO
Reinaldo Andrade
Personagens:
JÚLIO
– Senhor cinqüentão, pai de Sérgio
e de Marta. Ele se confessa agnóstico mas,
no fundo, no fundo, tem lá uma crença
particular numa divindade criadora de tudo o que
existe. Parece ser mais do tipo de pessoa que
está à espera de que algo aconteça
ou de que alguém lhe prove a existência
de Deus, para crer.
SÉRGIO
– Rapaz de vinte e poucos anos. Sacerdote, está
convicto de que tudo o que aprendeu no seminário
é a mais pura Verdade. É tremendamente
céptico quanto as novas ideologias, facções
ou seitas religiosas, e mesmo quanto as mais controvertidas
teses teológicas progressistas. Conservador
nato.
PEDRO –
Irmão de Júlio e cinqüentão,
como ele. Muito brincalhão, é espírita
convicto. Fala com entusiasmo e com conhecimento
de causa sobre a doutrina em que acredita.
ANA –
Quarentona, mãe de Sérgio e de Marta,
abatida por causa de grave enfermidade. É
a mais religiosa da família, católica
convicta, embora vez ou outra lhe pinte uma dúvida
passageira e superficial quanto aos dogmas da
Igreja.
MARTA –
Irmã de Sérgio, universitária,
20 anos. Culta, está absolutamente convencida
de que a morte é o fim de tudo. Leitora
assídua dos grandes materialistas históricos,
tem neles os formadores de sua opinião,
aliás, sob esse aspecto, bem fundamentada.
MENTORES
ESPIRITUAIS, CONFESSOR, PADRE DIRETOR, REPÓRTER,
MENINO – Figurantes.
CENA 1
(Sala de uma casa de classe
média. Pai e filho jogam xadrez. A um canto,
Marta folheia um livro enquanto vê televisão.
O pai, Júlio, é um senhor grisalho,
forte, saudável, mas um tanto cansado.
Sérgio, o filho, tem vinte e poucos anos,
corpo atlético, e está com uma camisa
com colarinho fechado que denuncia a sua condição
de padre católico)
JÚLIO – É
a sua vez, filho.
SÉRGIO – (depois
de pensar um pouco) – O que o senhor faria se
eu jogasse o bispo na quinta da torre?
JÚLIO – (olhando
alternadamente para o tabuleiro e para o filho
que parece, discretamente, estar-se divertindo)
– Eu tombaria o meu rei...
(Júlio levanta-se,
desolado. O filho, amistoso, tenta animá-lo
e encorajá-lo)
SÉRGIO – Ora,
pai. Encare da seguinte forma: tudo não
passa de uma brincadeira... (gesticulando em direção
do tabuleiro) – Às vezes se ganha; às
vezes se perde... (e percebendo que o pai não
parece se divertir muito) – Preocupado?
JÚLIO – E não
é para estar? Sua mãe lá
no quarto, morrendo... E eu de mãos atadas,
sem poder fazer nada para salvá-la...
SÉRGIO – Mamãe
teve uma vida honrada, bela e muito digna. Está
recebendo o melhor tratamento possível
e, graças a Deus, não está
sofrendo, agora.
JÚLIO – Confesso
que não entendo como você pode ser
tão indiferente e manter tanta calma diante
da morte...
SÉRGIO – Calma,
sim; indiferença, jamais! O mistério
da morte é tão grande e desconhecido
para mim – apesar dos anos de estudo de Teologia
– quanto o é para o senhor. Mas não
se preocupe. Mamãe está sendo assistida
por um bom médico, já se confessou
e recebeu a comunhão e os santos óleos.
JÚLIO
– Invejo sua serenidade. Gostaria de acreditar
tão piamente na vida após a morte,
como você e sua mãe acreditam. Mas
o dom da fé não me tocou. Pelo menos,
não intensamente...
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