DELÍRIO
SOLITÁRIO
A
autodireção no trabalho solo de Denise Stoklos
FERNANDO
PRADO
APRESENTAÇÃO
Denise
Stoklos é uma atriz que ousou inventar seu teatro
baseado em suas convicções e idiossincrasias.
Nascida em Irati – Paraná, em 14 de Julho de
1950, Stoklos graduou-se em Ciências Sociais e
Jornalismo em Curitiba.
Em teatro começou sua carreira como
autora, diretora e atriz em 1968. Até 1977 atuou
em espetáculos dirigidos por Ademar Guerra,
Antunes Filho, Antônio Abujamra, Fauzi Arap e
Luiz Antônio Martins Corrêa entre outros. Em
1979 especializa-se em mímica em Londres, onde em
seguida desenvolve seu primeiro solo: One Woman
Show que percorreu a Inglaterra, França e
Brasil. Neste período ministrou cursos também.
Continua a montar solos. Em 1987 estréia Denise
Stoklos in Mary Stuart em Nova Iorque, na
comemoração dos 25 anos do La Mama. A partir de
então é convidada a apresentar seus novos
trabalhos no local.
Em
1994 é considerada a melhor atriz pelo festival
de Artes de Edimburgo, o mais importante
festival do globo. Em 1993, completando 25
anos de profissão, lança, entre outros volumes,
o Teatro Essencial, livro que disserta
sobre seu teatro, pensamentos e produção solo.
Jornalistas, atores e o público em geral começam
a perceber então que esta multi-artista merecia
atenção diferenciada, como analisa Kavita Nagpal,
jornalista do Hindustan Times: Um
novo vocabulário crítico tem de ser criado para
tratar do fenômeno Denise Stoklos.
Para
Stoklos, o ator é a essência do teatro, ou seja,
o ator não é uma mera inclusão no complexo
teatral de maquinarias e demais elementos que compõe
a cena contemporânea e sim o homem da ação.
Nesta proposta existem dois tipos de ator,
aquele que tem trabalho de um Xamã, capaz de
mobilizar energia, como em qualquer tribo ou
comunidade e aquele que é um ator de ficção,
que a partir do seu registro corporal e vocal, tem
a capacidade de criar personagens.
Os atores-Xamã são mais raros de
encontrar e sua apresentação envolve coisas
aparentemente ilógicas; sua disciplina é sem dúvida
mais rígida e levada a sério com maior ênfase.
Para Stoklos, toda a realização do espetáculo
deve partir do ator, desde o processo da escolha
do texto, ou da construção de sua própria
dramaturgia, até um pensamento conciso de luz,
som, figurino, cenário e produção executiva.
Esta função amontoada no ator caracteriza um
paradoxo, segundo Cristiane Moura3, porque
concentra no ator todas as representatividades
necessárias à realização da ação teatral
desejada, acumulando-o de representatividades
supostamente exteriores à sua função específica.
A função do ator, segundo Moura, é atuar; não
produzir. Entretanto esta é uma das propostas do
ator que se propõe a experimentar a
essencialidade de Stoklos. A atriz diz que seu
processo criativo processa-se sob forma de delírios;
referência ao sulco que o plantador faz na terra,
chamado de lírio, e sendo de-lírio a ação
humana de jogar a semente fora do sulco,
caracterizando uma ação fora do comum. |