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Osman
Lins
Avalovara, Nove, Novena e
A Rainha dos Cárceres da Grécia
asseguram a OSMAN LINS um lugar próprio
na literatura brasileira. Com essas obras de grande
singularidade, ele extrapola a condição
de escritor que teria contribuído para
a média da produção literária
do século XX, e, realizando uma poética
fundada na tensão entre a inserção
do homem no cosmos e seu enraizamento histórico,
se destaca de seus pares. Aspectos comuns unem
essas obras, mas os elos entre Nove, Novena e
Avalovara são mais fortes. Em ambos, enquanto
poesia e prosa se misturam, assim como imaginação
e cerebralismo, lirismo e crítica, indagações
e reflexões, cultura erudita e popular,
descrições pictóricas e eventos
prosaicos, dissertações e trechos
insólitos, metalinguagem e invenção,
qualquer ilusão da realidade está
banida. Com uma rigorosa construção
da estrutura narrativa, esse escritor transforma
seu regionalismo introspectivo inicial, fiel às
raízes nordestinas e ao contexto social,
em um experimentalismo fortemente calcado em uma
ficção do pensamento, em que se
destaca, sobretudo, o romance Avalovara.
OBRAS
O Visitante (1955); Os Gestos
(1957); O Fiel e a Pedra (1961) Lisbela e o Prisioneiro
(1961); Marinheiro de Primeira Viagem (1963);
Nove, Novena (1966); Guerra do “Cansa Cavalo”
(1967); Capa Verde e o Natal (1967); Guerra sem
Testemunha (1974); Santa, Automóvel e Soldado
(1975); Lima Barreto e o Romanesco (1975); Avalovara
(1975); A Rainha dos Cárceres da Grécia
(1976); Do Ideal e da Glória — Problemas
Inculturais Brasileiros (1977).
O TODO E A PARTE
“Romance? Poesia? Tratado
da narrativa? Visão do mundo? No universo
sem gêneros literários da literatura
contemporâneo, o livro de Osman Lins se
situa numa ambigüidade ilimitada. A começar
pela linguagem, que varia também com o
movimento da espiral, indo da simplicidade das
expressões correntes até à
paráfrase do Cântico dos Cânticos,
do tom de arrolamento metódico aos vôos
largos da poesia. Para se encontrar nessa ambigüidade,
o leitor deveria munir-se de um sentimento duplo,
que poderia ser chamado de sentimento do todo,
ou da espiral, e sentimento da parte, ou dos quadrados.
Há uma visão do todo, que se desvenda
lentamente, custando a ganhar forma em nosso espírito.
Não faz mal, porque o livro parece feito
para ser lido também nas suas partes.”
(Antonio Candido, A Espiral e O Quadrado)
Extrato da obra Avalovara
Ouço, ante a
janela aberta, o mar nas pedras próximas?
Uma criança, em pranto, cruzou com leves
sapatos o mal iluminado corredor do hotel? Respiro
o ar imóvel? Fala a alguém, em algum
quarto próximo, turbada pelas ondas, uma
voz de homem? Tem resposta? Minha grinalda pende
de um cabide alto. Itanhaém é o
nome da cidade e tudo surge — tudo: paredes, móveis,
vestes, movimentos, sons — nas inumeráveis
palavras com que narro, horas e horas, até
perder a voz e continuar a falar dentro de mim,
as minhas próprias núpcias e tantos
outros eventos, sem perceber sempre o nexo do
meu discurso. De um modo convulso, aos saltos,
descrevo o progresso diário e insensato
do meu amor sem amor. Meus sentimentos e atos
são os de quem ama? Contudo este amor é
enganoso, um sortilégio. Descrevo-o e descrevo
os ofuscantes dias em que me faço de alheia
ante o mecanismo há muito destinado a mim,
descrevo o apartamento da Avenida Angélica.
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