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Nelson
Rodrigues
Apesar dele ter dito que
toda unanimidade é burra (uma de suas inúmeras
frases antológicas), não resta a
menor dúvida de que NELSON RODRIGUES é
uma das mais inteligentes do país. Esse
jornalista, que transformou as páginas
futebolísticas em verdadeiro épico
nacional, as crônicas diárias em
manifestações do ser do temperamento
do povo brasileiro e suas próprias memórias
em um drama envolvente e desconcertante, causou
a maior revolução no teatro nacional,
levando-o, pela primeira vez, a uma dimensão
a um só tempo cosmopolita, universal e
contemporânea. Introduzindo inúmeras
inovações capazes de surpreender
a crítica e o público, sua linguagem
coloquial chocou os beletristas da época.
Com grande coesão temática e estrutural,
além de um amplo espectro de questões
existenciais, sua dramaturgia foi dividida em
três grupos: o mítico, o psicológico
e o das tragédias cariocas. Por entre peças,
contos, romances e crônicas, o escritor
nos legou um elenco de frases e personagens cravados
na memória brasileira como arquétipos
dos abismos da condição humana.
OBRAS
Vestido de Noiva (1943);
Álbum de Família (1945); Bonitinha,
mas Ordinária (1961); Toda Nudez Será
Castigada (1965); Teatro Completo (1981); A Vida
como ela É: O Homem Fiel e Outros Contos
(1992); O Óbvio Ululante (1993); A Coroa
de Orquídeas (1993); A Menina sem Estrelas
(1993); À Sombra das Chuteiras Imortais
(1993); A Pátria em Chuteiras (1994); O
Reacionário (1995); O Remador de Ben-Hur
(1996).
NO CERNE DA RENOVAÇÃO
DAS ARTES
“Seria mais adequado dizer
que o teatro, como espetáculo, se universalizava
à maneira das outras artes modernas, e
Nelson Rodrigues representava para o palco o que
trouxeram Villa-Lobos para a música, Portinari
para a pintura, Niemeyer para a arquitetura e
Carlos Drummond de Andrade para a poesia. O certo
é que a estréia de Vestido de Noiva
fez que o teatro brasileiro perdesse o complexo
de inferioridade.” (Sábato Magaldi, “Introdução
ao Teatro Completo”)
DESFIGURAÇÃO
E METAMORFOSE
“Com Nelson Rodrigues, deslizamos
ladeira abaixo na corrente das convicções.
Não podemos crer nos postulados da política,
da história, da moral, da literatura. Tudo
é e ao mesmo tempo não é.
O que é se superpõe ao que era com
velocidade e fugacidade, o presente sufoca o passado
num processo de desfiguração e metamorfose.
Nada nos assegura, nem as armas.” (Ronaldo Lima
Lins, Nelson Rodrigues outra Vez: O Bandido e
o Felino Predador)
Extrato da obra Vestido de
Noiva
(Começa o terceiro
ato com o teatro em trevas. Clessi e Alaíde
ao microfone.)
Clessi (microfone) — Talvez
você não tenha assassinado seu marido.
Alaíde (microfone)
— Mas eu me lembro! Foi com um ferro — bati na
base do crânio! Aqui.
Clessi (microfone) — Às
vezes, pode ter sido sonho!
Alaíde (microfone,
com um acento doloroso) — Sonho — será?
Estou com a cabeça tão virada! Pode
ser que tudo tenha ficado só na vontade!
Clessi (microfone) — Então
aconteceu o quê, na igreja?
(Luz no plano da memória.
Estão Clessi e o seu namorado vestidos
à maneira de 1905.)
Alaíde (microfone)
— Estou sempre com a idéia que seu namorado
tinha a cara de Pedro.
(Clessi e Pedro sentados,
num récamier.)
Clessi (com o mesmo vestido,
mas sem chapéu) — Quer ver meus coelhinhos
no quintal?
Namorado (frio) — Não.
Clessi (meiga) — Tem
uns tão bonitos! (levantam-se os dois.
Ele olha-a, depois senta-se de costas para ela.
Clessi anda e volta.)
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