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Sobre o Autor e sua Obra

Manuel Antônio de Almeida

Em meio à massa de livros similares que uma época produz, surgem, eventualmente, algumas obras inconformistas que primam pela diferença. Nascidas à margem do que vige de mais preponderante, essas escritas se direcionam para o futuro, que, reconhecendo seu valor, passa a acolher as inovações instauradas. Esse é exatamente o caso de Memórias de um Sargento de Milícias, o romance que, reagindo contra o Romantismo, inaugura a literatura urbana brasileira através de uma aventura picaresca acontecida no princípio do século XIX no Rio de Janeiro. MANUEL ANTÔNIO DE ALMEIDA se aproveita de tudo o que é popular. Seus personagens são mendigos, cegos, soldados, barbeiros, comadres, mestres de rezas, meirinhos... saídos diretamente da vivacidade típica da sociedade média da época. Simultaneamente, há uma utilização dos elementos lingüísticos correspondentes aos tipos que habitam seu romance, operacionando toda uma rede de brasileirismos, modismos, ditos populares, frases feitas etc., além de um vasto repertório de músicas, danças e costumes do povo nacional às vésperas da independência do país.

OBRAS

Memórias de um Sargento de Milícias (1855); Dois Amores (1861).

ORIGINAL E EXTRAORDINÁRIO

“Em 1852, levado pelo seu trabalho de jornalista em busca de assunto, forçado pelas exigências da publicação periódica, mas dominando agilmente essas condições, Manuel Antônio de Almeida iniciava em folhetins semanais do Correio Mercantil as suas Memórias de um Sargento de Milícias. Estes folhetins iriam constituir um dos romances mais interessantes, uma das produções mais originais e extraordinárias da ficção americana.” (Mário de Andrade, Memórias de um Sargento de Milícias)

À FRENTE DE SEU TEMPO

“É original como nenhum outro dos até então e ainda imediatamente posteriores, aparecidos, pois foi concebido e executado sem imitação ou influência de qualquer escola ou corrente literária que houvesse atuado a nossa literatura, e antes pelo contrário a despeito delas, como uma obra espontânea e pessoal. Em pleno Romantismo, aqui sobreexcessivamente idealista, romanesco e sentimental também em excesso, o romance de Manuel de Almeida é perfeitamente realista, ainda naturalista, muito antes do advento, mesmo na Europa, das doutrinas literárias que receberam estes nomes.” (José Veríssimo, História da Literatura Brasileira)

Extrato da obra Memórias de um Sargento de Milícias

Lá para as bandas do mangue da Cidade Nova havia, ao pé de um charco, uma casa coberta de palha da mais feia aparência, cuja frente suja e testada enlameada bem denotavam que dentro o asseio não era muito grande. Compunha-se ela de uma pequena sala e um quarto; toda a mobília eram dois ou três assentos de pau, algumas esteiras em um canto, e uma enorme caixa de pau, que tinha muitos empregos; era mesa de jantar, cama, guarda-roupa e prateleira. Quase sempre estava vazia essa casa fechada, o que a rodeava de um certo mistério. Esta sinistra morada era habitada por uma personagem talhada pelo molde mais detestável; era um caboclo velho, de cara hedionda e imunda, e coberto de farrapos. Entretanto, para a admiração do leitor, fique-se sabendo que este homem tinha por ofício dar fortuna!

Naquele tempo acreditava-se muito nestas coisas, e uma sorte de respeito supersticioso era tributado aos que exerciam semelhante profissão. Já se vê que inesgotável mina não achavam nisso os industriosos!

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