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Lima
Barreto
A passagem do século
XIX ao XX foi decisiva para a literatura brasileira,
instaurando aspectos que serão consolidados
de maneira definitiva. Vivendo esse momento que
recolhe o passado para lançá-lo
ao futuro, a vida de LIMA BARRETO se distende
pelos dois séculos, findando justamente
no ano simbólico da Semana de Arte Moderna
de 22. Ao lado da de Machado de Assis, sua prosa
é das mais representativas da ficção
urbana brasileira, que se afirma nessa época
e tem o Rio de Janeiro, capital recente do país,
como principal fonte instigadora. Talvez apenas
Nelson Rodrigues, décadas mais tarde, tenha
conseguido narrar o cotidiano humilde da pequena
classe média do subúrbio com elementos
tão vivos e disparatados quanto esse mestiço
que se transformou num crítico ferrenho
da perversa hipocrisia social. Marcado por uma
vida trágica e maldita, Lima Barreto deixa
para a posteridade um Diário do Hospício,
impactantes narrativas confessionais e fragmentárias
que são exemplos estarrecedores da fusão
entre literatura e vida.
OBRAS
Recordações
do Escrivão Isaías Caminha (1909);
Triste Fim de Policarpo Quaresma (1911); Numa
e a Ninfa (1915); Vida e Morte de M. J. Gonzaga
de Sá (1919); Histórias e Sonhos
(1920); Os Bruzundangas (1922); Bagatelas (1923);
Clara dos Anjos (1923-1924); Vida Urbana (1956);
Marginália (1956); Diário Íntimo
(1956); Diário do Hospício (1956).
POR UMA IDENTIDADE URBANA
“Diante desta cidade fragmentada,
Lima Barreto assume a tarefa de, como escritor
e intelectual, costurar a identidade de uma cidade
ainda não completamente formada e já
em dilaceração.” (Beatriz Resende,
Lima Barreto e o Rio de Janeiro em Fragmentos)
UM CURTO-CIRCUITO CRÍTICO
NO UFANISMO
“A ficção de
Lima Barreto seria o elemento que irromperia na
cadeia discursiva nacional ufanista, causando
um curto-circuito crítico que é
implacável. É o primeiro e histórico
curto-circuito operado na cadeia.” (Silviano Santiago,
Vale quanto Pesa)
Extrato da obra Triste Fim
de Policarpo Quaresma
De fato, ele estava
escrevendo ou mais particularmente: traduzia para
o ‘clássico’ um grande artigo sobre ‘Ferimentos
por armas de fogo’. O seu último truque
intelectual era este do clássico. Buscava
nisto uma distinção, uma separação
intelectual desses meninos por aí que escrevem
contos e romances nos jornais. Ele, um sábio,
e sobretudo um doutor: não podia escrever
da mesma forma que eles. A sua sabedoria superior
e o seu título ‘acadêmico’ não
podiam usar da mesma língua, dos mesmos
modismos, da mesma sintaxe que esses poetastros
e literatos. Veio-lhe então a idéia
do clássico. O processo era simples: escrevia
do modo comum, com as palavras e o jeito de hoje,
em seguida invertia as orações,
picava o período com vírgulas e
substituía incomodar por molestar, ao redor
por derredor, isto por isto, quão grande
ou tão grande por quamanho, sarapintava
tudo de ao invés, empós, e assim
obtinha o seu estilo clássico que começava
a causar admiração aos seus pares
e ao público em geral.
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