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JOSÉ
MARTINIANO DE ALENCAR nasceu em
Mecejana, Ceará, em 1º de maio de 1829, e
faleceu no Rio de Janeiro em 12 de dezembro de
1877. Bacharelou-se em Letras no Colégio Pedro
II, Rio de Janeiro, e em Direito na Faculdade de São
Paulo. Em 1847 escreveu seu primeiro romance,
"Os Contrabandistas", que jamais foi
publicado porque Alencar tinha um hóspede
desatendo que acendia o cachimbo com as folhas
manuscritas da obra.
Formado
em Direito em 1850, transferiu-se para o Rio de
Janeiro onde iniciou sua carreira de advocacia e
começou a colaborar no "Jornal do Comércio".
Em 1856 escreveu "Cartas sobre a Confederação
dos Tamoios", o que lhe valeu a projeção
nos meios literários a partir de então. Além de
advogado, jornalista e romancista, foi professor,
orador, crítico, deputado em várias legislaturas
e Ministro da Justiça em 1868. Patrono da cadeira
número 23 da Academia Brasileira de Letras.
José
de Alencar não conseguiu realizar a ambição que
nutriu, de tornar-se senador. E politicamente
experimentou o desgosto de memorável
desentendimento com o Imperador. Ganhou lugar em
nossa História como romancista, fundando o
romance histórico nacional.
De
sua vasta obra fez Manuel Bandeira uma classificação
de acordo com o gênero de seus romances:
Romances
mundanos:
"Cinco
Minutos", "A Viuvinha", "A
Pata da Gazela", "Sonhos d'Ouro",
"Diva", "Lucíola",
"Senhora", onde fixou tipos e a vida da
corte no século passado.
Romances
históricos:
"As
Minas de Prata", "A Guerra dos
Mascates", "O Garatuja"
"Alfarrábios"; regionais: "O Gaúcho"
e "O Sertanejo"; sociais:
"Til", "O Tronco do Ipê".
Romances
indianistas:
"O
Guarani", "Iracema" é
"Ubirajara". Como teatrólogo: "0
Demônio Familiar"; "Mãe";
"Verso e Reverso"; "As Asas de um
Anjo"; e "0 Jesuíta".
José
de Alencar introduziu o indianismo na prosa, o que
já fizera Gonçalves Dias na poesia. De admirável
poder descritivo, soube retratar a nossa natureza
com cores maravilhosas. Seu estilo é retórico e
brilhante, porém, descuidado na gramática, com
que, ao lado de palavras do tupi-guarani, procurou
criar a língua brasileira. Bateu-se também pela
autonomia da nossa literatura.
O
romance "0 Guarani" apesar de não ser o mais
importante é um dos mais populares, tendo sido
inclusive aproveitado na ópera de Carlos Gomes, O
Guarani. Esse romance apresenta o consórcio do
povo invasor, o europeu, com o Indígena. Esta
afirmativa vem simbolizada no romance através da
fuga, durante a enchente, de Peri e Ceci, onde
assistimos à confissão de amor de ambos. Este
fato comprova o intercâmbio feito entre as duas
raças que inicialmente compuseram a nossa etnia.
O
romance O Guarani, além de ser um romance histórico,
traz como personagem, a família de D. Antônio de
Mariz, personagem real. A natureza em José de
Alencar tem um tratamento de exaltação extrema,
para valorizar a terra - numa defesa da tese
nacionalista de valorização do homem e da terra
pátria. As suas descrições da natureza são
infindas, sempre ressaltando a riqueza da fauna e
da flora principalmente.
A
estrutura do romance, em Alencar, já é bastante
diferente da estrutura dos romances de Macedo,
pois o autor desenvolve vários planos narrativos
simultaneamente. As técnicas de exposição
aplicadas nos seus romances são: a descritiva,
usada em excesso, porém, constitui um documento
fiel dos usos e dos costumes da época. Também a
narração é bastante representativa e o diálogo
aparece em escala menor. A obra de Alencar é de
valor e seus romances não são de um diletante,
pois quando chegam ao público o fazem com um grau
bastante considerado de maturidade. Sabemos que
foi um incansável ledor e conhecedor "in
loco" da natureza brasileira. Tinha grande
cultura e erudição. Para composição dos
romances históricos lia crônicas coloniais.
Sofreu Influência dos românticos ingleses e
franceses.
José
de Alencar fez uma elaboração de um grande
romance histórico (Os Contrabandistas começado
por volta de 1847, mas não concluído), acabou
por estrear com um "romancete" Cinco Minutos,
publicado, anonimamente, em folhetins do Diário
do Rio de janeiro, e escrito à pressa, tão-só
para atender ao gosto do público, desde A
Moreninha, de Macedo, cada vez mais interessado em
"histórias" sentimentais vividas por moças
da sociedade carioca.
CINCO
MINUTOS
O
romancete de estréia era apenas uma "história
curiosa", ocorrida há dois anos com o Autor
anônimo do folhetim, e relatada à sua prima D. .
., interessada em saber os motivos Por que ele,
jovem, rico, elegante, disputado pelas moças da
sociedade do Rio de janeiro e, em matéria de
conquistas um dos célebres "leões"
dessa sociedade, desaparecera da Corte.
Tendo
perdido - começa o Autor a sua história - por
cinco minutos, o "ônibus" para Andaraí,
teve de esperar o seguinte; e neste aconteceu
encontrar uma estranha mulher, cujas feições não
conseguira definir, pelo véu que lhe ocultava o
rosto, mas que lhe parecera jovem e bela.
Abordando-a, teve a surpresa da correspondência
de um furtivo aperto de mão. Animado por essa
correspondência e intrigado com o mistério que
parecia envolver a vida de tal mulher, tentou
abordá-la diretamente; mas nesse momento ela
saltou da carruagem e lhe deixou uma frase tão
intrigante quanto seu parecer, - non ti scordar di
me (da ópera OTrovador, de Verdi, então nos palcos
cariocas).
Seduzido
pela figura da enigmática mulher e por tudo que
de estranho revelava seu comportamento,
empenhou-se, durante dias, na sua conquista; e -
após vários incidentes, que foram verdadeiras
peripécias, que contribuíram para tornar ainda
mais excitante a situação em que se envolvera,
veio ele, o Autor, a conhecer a misteriosa mulher:
tratava-se de uma jovem que, na realidade,
correspondia em beleza e ainda em retribuição de
amor, a tudo que ele imaginara; chamava-se Carlota,
tinha 16 anos, há tempos o amava, sem que ele
soubesse, e a ele já teria oferecido seu destino,
não estivesse condenada, por insidiosa doença
(tuberculose). Mais peripécias, motivadas pela
fuga de Garlota, na companhia da mãe, em busca de
climas que lhe restituíssem a saúde (Petrópolis
e depois a Itália) e também para se afastar de
uma paixão em que sabia que sacrificaria o amado.
Mais
forte, entretanto, que as razões de Carlota, era
a paixão do Autor: vencendo dificuldades de toda
ordem, o que tomou ainda mais empolgante sua
conquista, conseguiu chegar a Nápoles, para dar
à amada, já no fim de sua breve existência,
pelo menos o conforto de uma assistência afetiva
e moral. Passados alguns dias, num melancólico
entardecer, Carlota, quase a morrer, pediu-lhe que
sorvesse, num primeiro e último beijo, a sua
alma... ; e nesse momento operou-se (como depois
explicaram os médicos) um verdadeiro
"milagre do amor". Carlota reviveu; e
passado algum tempo, recuperada a saúde, casou-se
com seu amado.
Completada
uma venturosa viagem de núpcias, pela Europa, de
que trouxeram ambos as mais belas e inesquecíveis
recordações, vieram a esconder e preservar sua
felicidade conjugal, num lindo retiro, numa
montanha de Minas, donde o Autor, então, escrevia
à prima, contando-lhe a história de amor que,
sem dúvida, fá-la-ia compreender a razão de seu
desaparecimento da sociedade carioca, em tudo, mas
principalmente pela falsidade dos sentimentos,
contrária à verdadeira e pura felicidade
matrimonial.
Terminado
o romancete (a expressão é do próprio José de
Alencar) estava, evidentemente, satisfeita a
curiosidade da prima, e - é de crer - o gosto dos
leitores por tal gênero de leitura, o que é de
concluir, pois o folhetim teve o seu êxito.
Animado
por tal êxito, mas também pela facilidade com
que lhe corria a imaginação e a pena, no
desenvolvimento de uma história sentimental,
"ocorrida" na sociedade carioca, José
de Alencar lançou-se, logo a seguir (janeiro e
fevereiro de 1857), à publicação, no mesmo
jornal, de outro romance em folhetins - A Viuvinha, muito naturalmente no gênero do
anterior.
A VIUVINHA
É
a "história" de dois jovens (Carolina,
de 15 anos, e Jorge, de 24), que, embora se amando
intensamente e com todo o direito desse amor,
tiveram de vencer toda sorte de reveses, para
chegar à merecida felicidade do matrimônio; ou
para usar de uma interpretação do próprio
Autor: o romance da Viuvinha era, em síntese, a
história da "felicidade depois de cruéis e
terríveis Provações". Quanto ao gênero,
fazia questão de dizer o Autor, que continuava anônimo,
não se tratava de um romance, isto é, de obra de
ficção, inventada e campanuda, mas apenas de uma
narração "simples e fiel de uma pequena
história". Quanto ao estilo era, mais uma
vez, uma conversa do Autor com sua prima D... .
José
de Alencar resolve, em 1857, escrever peças de
teatro. 0 Jesuíta, a mais ruidosa de suas peças,
escrita em 1875, pertencem a Alencar: "Verso
e Reverso", comédia em dois atos; "0
Demônio Familiar" (1857), "As Asas de
uni Anjo" (1860), comédia; "Mãe"
(1862), drama; "A Expiação" (1865),
comédia; "O Crédito" (1867). Em, 1860,
escreve uma comédia lírica em dois atos
"Noite de São João", um tipo de
opereta, que recebeu música do maestro Elias
Lobo.
Seus
romances constituem a parte mais importante e
extensa de sua obra: "O Guarani(1857),
"Cinco Minutos" (1860), "A
Viuvinha" (1860), "Lucíola"
(1862), "Diva" (1864), "As Minas de
Prata" (1864-1865), "Iracema"
(1865), "O Gatíclio" (1870), "A
Pata da Gazela" (1870), "0 Tronco do Ipê
(1871), "Sonhos D'Ouro" (1872),
"Til" (1872), "Alfarrábios"
(1873), "A Guerra dos Mascates"
(1873-1874), "Ubirajara" (1874),
"Senhora" (1875), "O
Sertanejo" (1876) e "Encarnação" (1877).
José
de Alencar realizou única obra romancística que
abarca toda a realidade brasileira. O indianismo
está presente em romances como "O
Guarani", "Iracema" e
"Ubirajara".
O
urbanismo, a apresentação de tipos e problemas
urbanos, está retratado por "A
Viuvinha", "Cinco Minutos",
"Lucíola", "A Pata da
Gazela", "Sonhos D'Ouro",
"Encarnação" e "Senhora",
seu último e mais representativo romance da
realidade urbana.
No
campo do romance regionalista Alencar contribuiu
com "O Gaúcho", "O Tronco do Ipê",
"Til" e "O Sertanejo", e no ao
romance histórico aparece com "As Minas de
Prata" e "A Guerra dos Mascates",
principalmente.
O Guarani
(um romance brasileiro)
"EPOPÉIA
DA FORMAÇÃO DA NACIONALIDADE" Dom Antônio
de Mariz, fidalgo português residente no Brasil,
que não se conformava com a dominação
espanhola, após perder Portugal a sua independência
política, em 1580, construiu uma ampla e espaçosa
casa no sertão, às margens do rio Paquequer,
afluente do rio Paraíba.
A
casa era verdadeira fortaleza, protegida por
muralhas de rocha a pique. Dom Antônio de Mariz
vivia em companhia da esposa, Dona Lauriana, de
seus dois filhos: Dom Diogo de Mariz e Cecília, a
qual tinha então 18 anos; de seu escudeiro e
amigo A ires Gomes; de uma sobrinha, Isabel (que
todos sabiam ser filha natural de Dom Antônio e
de uma índia), e de um fidalgo chamado Álvaro.
Além desses personagens, havia, a serviço de Dom
Antônio, um grupo de aventureiros, destacando-se
entre eles Loredano, um ex-frade. Aparece, logo
nas primeiras páginas do romance, o Índio Peri,
da nação Goitacá, que se torna companheiro e
protetor de Ceci e da família desta. Dom Diogo de
Mariz matara casualmente uma índia da tribo Aimoré.
Este fato exaspera a família da índia que
pretende vingar-se. Espreitam a casa, e,
aproveitando-se do banho de Cecília e Isabel em
águas do Paquequer, pretendem flechar Cecília,
quando Peri, vigilante, mata-os.
Uma
índia, que a tudo assistira, foge e vai contar
aos de sua tribo: esse é o motivo da guerra que
os selvagens vão mover a Dom Antônio de Mariz.
Loredano, quando ainda era frade, havia conseguido
de um moribundo, o roteiro das famosas minas de
ouro de Robério Dias e, impulsionado por
desmedida ambição de enriquecer, deixou o hábito
monacal com o fito de procurar o tesouro. Está
com empregado de Dom Antônio temporariamente; seu
plano é assaltar a casa e no momento oportuno;
mataria todos (menos Cecília pela qual sente
forte paixão e que ambiciona fazer sua esposa) e,
em seguida, explorar o ouro das minas de Robério
Dias.
Através
de tramas diabólicas, aliciando-se como comparsa
aos outros aventureiros, tentará por todos os
meios concretizar seus planos que, entretanto,
sempre falham, graças à vigilância de Peri que
não perde Loredano de vista. Álvaro ama Cecília,
que não lhe corresponde. Isabel é que nutre
grande paixão por Álvaro e se tortura de ciúmes
vendo a atenção que Álvaro dá à prima. Aos
poucos, no decorrer do romance, os sentimentos de
Álvaro vão se voltando para Isabel, por causa de
Dona Lauriana, que não gosta de Peri. Este,
obedecendo a Dom Antônio, está prestes a voltar
para sua tribo, deixando Cecília.
Mas,
ao saber de Peri que os aimorés se aproximam para
sitiar e atacar a casa, mudam-se os planos de Dom
Antônio: Peri ficará. Dom Antônio, temendo
pelos filhos e querendo solicitar socorros, envia
Dom Diogo ao Rio de Janeiro. Loredano, depois que
Peri denuncia a Álvaro os planos diabólicos que
tem, vai também partir com Dom Diogo, mas,
iludindo a vigilância deste, deixa-o a meio do
caminho, e, conforme estabelecera com seus
comparsas aventureiros, irá executar a trama que
engendrara com eles, naquela mesma noite.
A
primeira coisa que tenta fazer é roubar Cecilia;
mas quando está para deitar-lhe a mão, Peri
desfere uma flecha certeira que vara a mão de
Loredano e a fixa na parede da alcova de Cecília.
Loredano foge, e, percebendo que seus planos
falham, muda de tática: procura amotinar os
aventureiros contra Dom Antônio de Mariz. E já
os amotinados se acercam de Dom Antônio quando
soa o alarma: os índios aimorés estão à vista.
Diante do perigo comum, os homens de Dom Antônio
e os de Loredano se unem para a defesa, embora em
pontos separados. Peri, imaginando que poderia
matar todos os aimorés, sozinho, toma veneno e se
lança contra mais de duzentos índios, quando já
fizera grande mortandade, entrega-se como
prisioneiro. É que ele conhecia o costume
daqueles índios antropófagos que costumavam
devorar os inimigos valorosos; assim, estando ele
envenenado, todos morreriam.
No
momento em que estava para ser sacrificado, Álvaro,
chefiando um grupo de seus homens, salva Peri das
mãos dos Indígenas. Peri volta e conta que havia
tomado veneno. Diante de um pedido de Cecília,
entretanto, o índio fiel interna-se na floresta
em busca de uma erva que inutiliza o efeito do
veneno. Percebendo que Cecília amava Peri, Álvaro
suicida-se. Isabel, desesperada, diante do cadáver
de Álvaro, também se suicida. Loredano continua
tramando: imagina que seria agora mais fácil
tornar-se senhor da casa; bastaria matar D. Antônio,
a mulher e o escudeiro; mas Peri vigia e, quando
Loredano menos supõe, é preso e condenado a
morrer queimado.
Inicia
o cerco dos selvagens. Já está por pouco a
entrada deles na casa. Peri pede a Dom Antônio
que olhe Cecília, a qual, naquele instante, dorme
sob os efeitos do vinho que o pai lhe dera. Dom
Antônio diz que não sé afastará do lar. Peri,
a pedido do pai de Cecília, faz-se cristão, e
recebe o encargo de salvar Cecília. Descendo por
uma corda através do abismo e equilibrando-se em
troncos de árvores caldas, o índio amigo atinge
o Paquequer onde, em frágil canoa, foge descendo
rio abaixo.
Já
longe, ouve terrível estampido, o fogo atingira o
paiol de pólvora da casa de Dom Antônio,
destruindo, com a casa, os próprios aimorés. Cecília
acorda, o índio lhe conta as últimas peripécias.
Cecília, só no mundo, sente crescer sua afeição
por Peri, chamando-o de irmão, e pretende ficar
com ele na floresta, não mais voltando ao Rio de
Janeiro. Desaba a tempestade. As águas sobem,
sobem, Peri leva Cecília ao alto de uma palmeira.
As águas continuam subindo. Peri, então, desce
até as raízes da palmeira e as desprende do
solo, após gigantesco esforço. E a palmeira,
ninho onde se abrigam Cecilia e Peri, vai vagando
nas águas e se perde no horizonte.
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