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Herbert
Spencer, filósofo e sociólogo dos mais notáveis da Inglaterra, nasceu em Derby (27 de Abril de 1820) e morreu em Brighton (8 de Dezembro de
1903).
Eis um filósofo singular que nada deve às universidades — que não freqüentou — nem ao chamado ensino clássico, que nunca recebeu. Spencer é apontado como um argumento decisivo contra os que subordinam ao ensino clássico toda a disciplina mental e toda a capacidade dum labor verdadeiramente sistemático. Tudo isto, com efeito, se encontrou em Spencer, aliado a uma inteligência infatigável ante as mais árduas, exaustivas e — para tantos outros — desalentadoras
tarefas.
Spencer, desde muito cedo, sentiu-se atraído pelas hipóteses evolucionistas, e, desde as primeiras interrogações da sua inteligência ante o fenômeno do
Universo, não é difícil adivinhar nele uma organização mental altamente dotada para, nos domínios metafísicos, realizar trabalho pessoal. Não é ousado, porém, afirmar que na sua obra se encontram claros vestígios da influência dum Stuart Mill, dum
Bentham, dum Hamilton, dum Adam Smith, dum Malthus, — a que não foi estranha a sua tendência filosófico-sociológica.
Até aos 40 anos Spencer considera que a sua vida foi apenas miscelânea. Entretanto, que atividade singular a sua, desde o bosquejo “Social Estatics” (1830), passando por “The development hypothesis” (1852), “A new theory oi population” (1852), “Manners and fashion” (1854), “The genesis of Science” (1854), “Education
physical, intelectual and moral” (1861), “First Principies” (1862), “The classification of Science” (1864), “Principies of Biology” (1867), “The Study Sociology” (1873), “The moral of trade” (1874),
etc.!
O ensaio agora incluído nos Cadernos Inquérito (“Progress, its law and cause”) é de 1857 e nele
spencerianas.
Para Spencer, a filosofia é o saber totalmente unificado, e na evolução deve buscar-se a lei fundamental do Universo. O primeiro estado universal é a massa homogênea, informe e confusa. É a fase nebulosa, que se diferencia pela condensação, que dá origem ao sistema planetário em que a Terra se integra, inicialmente em estado ígneo. Pelo esfriamento gradual, aparece a primeira camada terrestre — a crosta —, os continentes, os mares,
etc.
A vida, na sua forma rudimentar — o protoplasma — produz-se no mundo universal, por combinações químicas indefinidameute complexas. Pela ininterrupta diferenciação e concentração, o protoplasma desenvolve-se e dá lugar à vida orgânica, — vegetal e animal.
Pela marcha contínua do homogêneo para o heterogêneo, os seres tornam-se cada vez mais diferenciados e complexos. A sua existência, relacionada com os meios de conservação, desenvolve-se submetida a permanente luta, em que triunfam os mais aptos.
O aparecimento do sistema nervoso nos organismos assinala o ponto culminante da evolução animal, donde o homem
procede.
Não pretendemos fazer uma síntese da filosofia de Spencer, nem seria possível fazê-la em tão acanhados moldes como os estabelecidos pelo objetivo dos Cadernos Inquérito. Algumas notas, porém, eram necessárias, para melhor compreensão do que o presente ensaio de Spencer significa no conjunto da sua
obra.
Para Spencer o Universo evoluciona; e evolucionar é progredir; progride, no seu conjunto, como progridem as células, que o constituem ou habitam. E sendo a causa determinante desse progresso, em todas as ordens, — astronômica, geológica, orgânica, social, econômica, etc. — comum a todas elas, deve poder exprimir-se em função deste atributo; deve haver um caráter comum a todas as transformações. A contínua passagem do homogêneo para o heterogêneo deve assentar numa lei que pode denominar-se da
transformação e enunciar-se deste modo: “toda a causa produz mais de um efeito” ou “toda a força ativa produz mais duma modificação”. E como cada modificação produzida é causa
doutras, teremos os efeitos, com o tempo, multiplicados indefinidamente até ao
inverossímil.
Mas Spencer é um filósofo honesto, e sabe que, depois da sua tese, nem tudo se esclarece. Não é um filósofo cheio de certezas, — dogmático e intransigente. Por isso tem o cuidado, cauteloso e angustiado, de nos dizer: “As generalizações precedentes têm valor, não para a geração das coisas em si mesmas, mas para a sua gênese, tal como se apresenta à consciência humana. Depois de tudo o que ficou dito, o derradeiro mistério fica tão oculto como dantes”. E a seguir: “O homem de ciência, contente com seguir a verdade, convence-se mais profundamente, a cada nova descoberta, de que o Universo é um problema
insolúvel.
Neste caso, o homem de ciência e o filósofo confundem-se. E então haverá quem,
mefistofelicamente, pergunte: — Pode então saber-se
para que serve a filosofia?... Ao que muitos poderão responder: — Para confirmar que nada
sabemos...
EDUARDO SALGUEIRO
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