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Sobre o Autor e sua Obra

Graciliano Ramos

Grandes escritores são aqueles que, pelo menos, escapam a todas as classificações onde os críticos desejam apreendê-los. Tendo estreado logo após José Américo de Almeida, Rachel de Queiroz, José Lins do Rêgo e Jorge Amado, ele é habitualmente situado no movimento regionalista, como integrante do ciclo nordestino, mas a verdade é que GRACILIANO RAMOS é um autor para sempre inclassificável. Seu projeto ficcional culminou na eliminação máxima de todo supérfluo para manter apenas o extremamente essencial, ou seja, a aspereza da vida a provocar a ruína social, a gratuidade do poder, a carência material e a destruição da consciência humana. Nele, não se pode estabelecer qualquer distinção entre a precariedade do real, do ser humano e da linguagem, inteiramente identificados num processo isomórfico de radicalidade raramente vista. Com uma estrutura desmontável em que a possível autonomia de cada capítulo se conjuga com a completude da obra, e se utilizando, entre outras, da forma livre do diário, as obras desse grande escritor acabaram por gerar alguns dos mais densos e importantes filmes nacionais da época do Cinema Novo.

OBRAS

Caetés (1933); São Bernardo (1934); Angústia (1936); Vidas Secas (1938); Histórias de Alexandre (1944); Dois Dedos (1945); Infância (1945); Insônia (1947); Memórias do Cárcere (1953); Viagem (1954); Linhas Tortas (1962); Viventes das Alagoas (1962); Alexandre e Outros Heróis (1962); Cartas (1962); Cartas a Heloísa (1992).

NA VIDA, SEM QUALQUER TRANSCENDÊNCIA

“Estamos ante a filosofia do nada — a da absoluta negação e destruição — que o Sr. Graciliano Ramos cultiva para os seus personagens. [...] Todos [os personagens] se acham dentro da vida, como que perdidos e abandonados, sem nada saber da sua origem nem do seu destino. Os seus atos se originam e se justificam, por si mesmos, fora de qualquer preocupação moral e transcendente.” (Álvaro Lins, Valores e Misérias das Vidas Secas)

UMA METAFÍSICA DA DANAÇÃO

“Construído sobre uma ‘estrutura desmontável’, sobre uma série de contos da cena agreste, Vidas Secas é a consumação formal de uma percepção de mundo na qual o sofrimento psicológico, a carência material e a gratuidade do poder estão na superfície dolorosa, mas harmônica, em que homem e paisagem se confundem. Graciliano parece chegar às portas de uma metafísica da danação do homem na terra, encerrando atavismo e sociabilidade num mesmo veio primitivo, cuja força se faz sentir nas falhas sempre perceptíveis do tecido da civilização.” (Manuel da Costa Pinto, Os Cárceres da Linguagem)

Extrato da obra Vidas Secas

Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da caatinga rala.// Arrastaram-se para lá, devagar, Sinha Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça, Fabiano sombrio, cambaio, o aió a tiracolo, a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão, a espingarda de pederneira no ombro. O menino mais velho e a cachorra Baleia iam atrás.// Os juazeiros aproximaram-se, recuaram, sumiram-se. O menino mais velho pôs-se a chorar, sentou-se no chão.

Para corresponder com o autor (a), escreva:record@record.com.br

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