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Érico
Veríssimo
Tirante a Semana de Arte
Moderna e o que decorreu diretamente a partir
dela, inúmeros escritores que estrearam
nos anos 30 vieram de fora do eixo cultural e
cosmopolita constituído por São
Paulo e Rio de Janeiro. Nordeste, Minas Gerais
e Rio Grande do Sul propiciaram novos movimentos
que geraram alguns dos mais estimados autores
nacionais. Nessa época, ao lado de Jorge
Amado, foi ÉRICO VERÍSSIMO quem,
vindo do extremo sul do país, melhor conseguiu
equacionar a relação entre uma literatura
de alta qualidade e rara popularidade, levando
sua obra a ser uma das mais traduzidas e filmadas
em todo o mundo. Um profundo sentido de observação
social, psicológica e dos costumes se sobressai
em suas novelas, contos e romances, que privilegiam
uma linguagem simples e direta, não obstante
densa. Indo do épico ao introspectivo,
com uma estrutura fortemente renovadora, O Tempo
e o Vento, sua obra de maior vulto, elogiada,
inclusive, por Gabriel García Márquez,
que disse ter sido esse um dos livros que influenciaram
Cem Anos de Solidão, realiza um amplo painel
da história sul-rio-grandense.
OBRAS
Fantoches (1932); Clarissa
(1932); Caminhos Cruzados (1935); Olhai os Lírios
do Campo (1938); O Resto É Silêncio
(1943); O Continente e o Retrato: O Tempo e o
Vento (1951); Noite (1954); O Arquipélago
(1962); O Prisioneiro (1967); Um certo Capitão
Rodrigo (1970); Incidente em Antares (1971); Ana
Terra (1971); Solo de Clarinetas: Memórias
(1973).
POPULAR E À FRENTE
DE SEU TEMPO
“Érico Veríssimo
um escritor de vanguarda? Acho que sim. Foi um
dos primeiros a fazer literatura urbana no Brasil,
a preferir o despojamento anglo-saxão à
empolação ibérica e francesa
e escrever com uma informalidade que não
excluía a experiência com estilos
e técnicas de narrativa. Talvez nenhum
outro escritor brasileiro do seu tempo fosse tão
bem informado sobre a teoria do romance, embora
se definisse como apenas um contador de histórias.
Foi ingênuo e lírico na sua primeira
fase, até O Tempo e o Vento, mas, mesmo
nos primeiros romances, que conquistaram um público
inédito e fizeram a sua reputação
de autor popular, há uma constante nem
sempre reconhecida de aguda observação
social e construção de tipos aliada
a um controle de técnica pouco comum, na
metrópole ou fora dela.” (Luís Fernando
Veríssimo, Um Chão Distante da Metrópole)
Extrato da obra O Tempo e
o Vento
Alonzo ia sendo aos poucos
consumido pelo lento fogo que se lhe acendera
no peito desde o dia em que chegara aos Sete Povos
a notícia da assinatura do Tratado de Madrid.
Era um braseiro de paixão, misto de revolta
nascida da consciência duma injustiça,
de mágoa e — embora ele relutasse em reconhecer
— de ódio. De faces descarnadas, dum amarelo
lívido a que a barba cerrada emprestava
um tom esverdeado, ele comia e dormia pouco e
mal, e vivia num permanente estado de agitação
física e espiritual. A roupeta negra lhe
ia ficando cada vez mais folgada no corpo anguloso;
a voz se lhe tornava azeda e áspera, os
gestos nervosos, e às vezes toda a vida
que havia nele parecia concentrar-se unicamente
nos carvões ardentes dos olhos.
Aqueles últimos
anos haviam sido particularmente difíceis
e duros, talvez os mais dolorosos de sua existência.
Outra vez estava ele em face duma tragédia.
Agora, porém, não se tratava apenas
de sua pessoa, mas sim de dezenas de milhares
de criaturas humanas. Ele sofria na carne e nos
nervos o drama dos Sete Povos.
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