|
Deonísio
da Silva
"O domínio das
técnicas narrativas, o trabalho equilibrado
com a tradição e a invenção
e a linguagem sólida são algumas
de suas qualidades literárias", disse
o Nobel José Saramago ao premiar, em 1992,
o romance Avante, Soldados: para trás,
uma visão cáustica das realidades
sociais da guerra do Paraguai, como vencedor do
Prêmio Internacional Casa de las Américas.
Com uma obra que busca aliar a história
nacional à ficção, refletindo
as características do ser brasileiro, DEONÍSIO
DA SILVA, professor universitário com vários
ensaios sobre os anos de censura e seus efeitos
na literatura, realiza uma contundente crítica
política sem se deixar cair no panfletário
ou em romances ensaísticos. Valendo-se
de um humor cáustico, a ficção
mantém sua autonomia. O último romance
que escreveu aborda a questão agrária,
uma das mais conflitantes do país, retomando
a trajetória histórica do movimento
dos sem-terra. Textos do autor foram adaptados
para a televisão e o cinema, entre os quais
se destacam Relatório Confidencial, dirigido
pelo dramaturgo Antunes Filho, e Teresa, cuja
direção foi de José Nélson
de Freitas.
OBRAS
Exposição de
Motivos (1976); Cenas Indecorosas (1978); A Mesa
dos Inocentes (1978); A Mulher Silenciosa (1981);
Livrai-me das Tentações (1984);
A Cidade dos Padres (1986); Orelhas de Aluguel
(1987); Avante, Soldados: para trás (1992);
O Assassinato do Presidente (1994); Ao Entardecer
ele Abraçava as Árvores (1995);
Teresa (1997); Os Guerreiros do Campo (2000).
UMA ESCRITA CORROSIVA
"Poucos escritores são
tão corrosivos quanto Deonísio da
Silva. Mais que irônico, ele é mordaz.
Corta, enquanto ri e faz rir. Não o riso
galhofo, mas um certo riso nervoso." (Ignácio
de Loyola Brandão, Leia)
RENOVADOR DA NARRATIVA
"É um escritor
que renova os padrões narrativos tradicionais,
em linguagem irônica, fluente, bem-humorada."
(Lauro Junker, A Gazeta)
Extrato da obra Os Guerreiros
do Campo
O movimento era organizado.
Um senhor de presumidos cinqüenta anos recebeu
Gregório com um facão de cortar
cana. O cabo estava enrolado num pedaço
de borracha. Outros quatro ou cinco homens o rodeavam.
Eram a sentinela avançada do acampamento.
Gregório não esperou que lhe perguntassem
o que queria e atravessou a cerca mais próxima
metendo-se entre os arames. Com boa vontade, o
homem com o facão abriu a cancela, composta
de um pedaço de pau e três fios,
e o convidou a entrar. Para ir adiante, porém,
a uns duzentos metros de onde estava a sentinela,
deveria aguardar "o chefe". Enquanto
isso, o homem com o facão, rodeado pelos
colegas sentinelas, foi explicando o que os trouxera
até ali. Havia gente das mais diversas
procedências. Ele tinha quarenta e oito
anos e estava desempregado, "como todo mundo".
Nos anos setenta deixara o Ceará e fora
para São Paulo, onde trabalhara como metalúrgico.
|