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Cruz
e Sousa
Poeta Negro, Dante Negro,
Cisne Negro... não são poucos os
epítetos colocados nesse poeta que, tendo
morrido em 1898, já foi comparado a Mallarmé,
Baudelaire, Stefan George e Lautréamont,
entre outros escritores de grande importância
internacional. Num momento em que o Naturalismo
e o Parnasianismo determinavam o cânone
literário do país, o aparecimento
de Broquéis inaugura o Movimento Simbolista
no Brasil, adquirindo com CRUZ E SOUSA (um filho
de escravos libertados que, apesar disso, recebeu
uma educação aristocrática
e se manifestou amplamente a favor do abolicionismo)
uma característica inteiramente singular.
Se sua originalidade decorre da capacidade criativa
e da dedicação, as tragédias
da vida não foram menos importantes para
a formulação de uma poética
simultaneamente pensada e nevrálgica, ou,
como já se disse, selvagem. Com ele, através
de uma desconexão lógica da imaginação
e de uma multiplicidade significativa da linguagem,
a subjetividade se abre, doridamente, a uma misteriosa
violência cósmica e ontológica.
Talvez, outro poeta não tenha tido um trabalho
tão afim ao dele quanto Van Gogh.
OBRAS
Tropos e Fantasias (1885);
Broquéis (1893); Missal (1893); Evocações
(1898); Faróis (1900); Últimos Sonetos
(1905); Obras (1943); Sonetos da Noite (1958);
Obra Completa (1961).
UMA VIDÊNCIA SINGULAR
“Cruz e Sousa foi a estilização
ou reação brasileira diante de um
Simbolismo eminentemente francês. No processo
dialético da obra do grande poeta negro,
está a nota mais tipicamente brasileira
de um movimento que era francês. A condição
do etnicamente marginal, do ‘emparedado’, agravada
pelas suas debilidades físicas, outorgou-lhe
uma cosmovisão de tal maneira peculiar
que o distancia convenientemente dos seus companheiros
franceses. Mesmo dos que, como Baudelaire, exerceram
influência no poeta.” (Eduardo Portella,
Aventura e Desengano da Periodização
Literária)
A MEDIDA DO IMPOSSÍVEL
“Pelos olhos do símbolo,
o poeta visionário penetra no invisível
e tenta nomear o que não se pode dizer,
mas assim lança a medida do impossível
que, desde o Simbolismo, persegue toda grande
poesia. Tanto as formas alvas quanto a noite de
Cruz e Sousa se arriscam a preencher esse mesmo
vazio, o indizível da experiência
simbólica, o oco do olho, às vezes
só silêncio.” (Davi Arrigucci Jr.,
A Noite de Cruz e Sousa)
Extrato da obra Emparedado
De que subterrâneos
viera eu já, de que torvos caminhos, trôpego
de cansaço, as pernas bambaleantes, com
a fadiga de um século, recalcando nos tremendos
e majestosos Infernos do Orgulho o coração
lacerado, ouvindo sempre por toda a parte exclamarem
as vãs e vagas bocas: Esperar! Esperar!
Esperar!
Por que estradas caminhei,
monge hirto das desilusões, conhecendo
os gelos e os fundamentos da Dor, dessa Dor estranha,
formidável, terrível, que canta
e chora Réquiens nas árvores, nos
mares, nos ventos, nas tempestades, só
e taciturnamente ouvindo: Esperar! Esperar! Esperar!
Por isso é que
essa hora sugestiva era para mim então
a hora da Esperança, que evocava tudo quanto
eu sonhara e se desfizera e vagara e mergulhara
no Vácuo...
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