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Chico
Buarque
É comum pensar-se
que entre o letrista de música e o poeta
há a mesma distância que entre o
tecladista de uma banda musical e um pianista
clássico. Tal consideração
reflete uma maneira estanque de se pensar a arte,
isto é, a partir de categorias imutáveis
e bem definidas. O fenômeno artístico,
entretanto, irrompe com muita freqüência
nas zonas fronteiriças entre essas categorias;
mais do que isso, o movimento entre registros
aparentemente imóveis pode constituir uma
expressão artística por si só.
A resistência em atribuir valor poético
à obra de CHICO BUARQUE é um grande
exemplo dessa obtusidade crítica. Depois
do lançamento de dois romances de grande
sucesso, porém, essa resistência
vem sendo vencida. Pois a linguagem rica em imagens
e símbolos, densa e de forte articulação
já presente nas letras de suas músicas
— consideradas por muitos como poemas verdadeiros
haja vista a virtuosidade e a universalidade —,
foi transposta para uma ficção de
filiação hiper-realista, dotada
de trama narrativa sofisticada e bastante hermética.
Sua poética é hoje plenamente reconhecida.
OBRAS
Roda-Viva (1967); Calabar
ou o Elogio da Traição [com Ruy
Guerra] (1974); Fazenda Modelo (1975); Gota D’água
[com Paulo Pontes] (1975); Ópera do Malandro
(1978); A Bordo do Rui Barbosa [com Valando Reating]
(1981); Estorvo (1991); Benjamin (1995).
FILIAÇÃO HIPER-REALISTA
“Ao filiar ‘Benjamin’ e ‘Estorvo’
— para mais bem compreender-lhes as peculiaridades
por vezes desconcertantes — em tão ilustre
tradição, é de elementar
justiça reconhecer que nenhum dos dois
romances de Chico Buarque a deixa estagnar-se
na repetição, mas logram ambos levá-la
à frente com duas criações
de indiscutível originalidade.” (José
Paulo Paes, Folha de S. Paulo)
ENCARNAÇÃO
DO POÉTICO
“Chico Buarque encarna os
requisitos da obra poética: emoção,
economia de palavras e agudo senso estético.
Dentro dele faz muito barulho. Mas quem o conhece
sabe que ele é quase silêncio, disfarçado
de tímido, como quem observa o mundo espantado
com o milagre da vida.” (Frei Betto, Cotidiano
e Mistério)
SITE
www.chicobuarque.com.br
Extrato da obra Estorvo
Dessa noite eu não
me esqueço porque terminou na cidade, num
apartamento de cobertura perto da praia, onde
uns estudantes de antropologia comemoravam a formatura.
Não conhecíamos ninguém,
e não sei como fomos parar naquele lugar.
Também não sei quem me apresentou
a uma das antropólogas, que tentou me ensinar
uma dança africana. Depois ela me contou
que pretendia conhecer o Egito, falou de sua experiência
no cinema, como continuísta, e no fim da
festa botou tarô para mim. Quando meu amigo
me deixou em casa ainda me lembro dele dizendo
que não achou grande coisas, a antropóloga.
Eu não discuti com ele, mas antes de dormir
fiquei pensando que ele podia às vezes
não estar com tanta razão. Casei
com a antropóloga no mês seguinte,
vivi trancado com ela quatro anos e meio, e nunca
mais soube do meu amigo.
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