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Adélia
Prado
Para mim, a definição
mais perfeita de poesia é: a revelação
do real. Ela é uma abertura do real. Ela
revela aquilo que a gente não sabe. Isso
é que é poesia para mim. Ela me
tira da cegueira. Um poema verdadeiro tem esse
poder, tanto que você abre um manuscrito
de mil anos e a coisa está lá, fresquinha,
não tem um grão de envelhecimento.
Para mim, experiência religiosa e experiência
poética são uma coisa só.
Isto porque a experiência que um poeta tem
diante de uma árvore, por exemplo, que
depois vai virar poema, é tão reveladora
do real, do ser daquela árvore, que ela
me remete necessariamente à fundação
daquele ser. A experiência se revela em
palavra. A palavra é a carne da experiência.
O nome tem que ser a coisa. A linguagem por excelência
desse júbilo é poética. Uma
oração verdadeira está ungida
de mistério, portanto de beleza – portanto
de poesia. Poeta não tem função
neste sentido de “utilidade” – ele vai ali, tem
a experiência e tal. Eu acho que a poesia
é um fenômeno da natureza, igual
a tempestade, rio, montanha.
(Frases de ADÉLIA
PRADO, tiradas da entrevista dos Cadernos de Cultura
Brasileira, no número dedicado à
poeta, e reordenadas)
Obras
Bagagem (1976); O Coração
Disparado (1978); Solte os Cachorros (1979); Cacos
para um Vitral (1980); Terra de Santa Cruz (1981);
Os Componentes da Banda (1984); O Pelicano (1987);
A Faca no Peito (1988); O Homem da Mão
Seca (1994); Poesia Reunida (1999); Oráculos
de Maio (1999); Manuscritos de Felipa (1999).
A SURPREENDENTE REVELAÇÃO
DA POESIA
“A linguagem da poetisa de
Divinópolis agrada porque surge desnudada
de sofisticações forçadas
e brota do contato familiar e direto com as suas
coisas. No desnudamento da rotina da vida mineira
a autora aproveita experiências de todos
os pesos e medidas: a sua poesia desfaz hierarquias
e firma a realidade sob o critério de valor
do seu próprio realismo. A palavra poética
surge como a revelação surpreendente
desta experiência: a poesia é também
uma manifestação da natureza viva,
como tudo, aliás, na sua poesia.” (Nádia
Gotlieb, “Grande Poesia”)
FOGO DIVINO
“Adélia é lírica,
bíblica, existencial, faz poesia como faz
bom tempo: esta é a lei, não dos
homens, mas de Deus. Adélia é fogo,
fogo de Deus em Divinópolis.” (Carlos Drummond
de Andrade, “De Animais, Santo e Gente”)
Extrato da obra Grande Desejo
Não sou matrona,
mãe dos Gracos, Cornélia,/ sou é
mulher do povo, mãe de filhos, Adélia./
Faço comida e como. Aos domingos bato o
osso no prato pra chamar o cachorro/ e atiro os
restos./ Quando dói, grito ai,/ quando
é bom, fico bruta,/ as sensibilidades sem
governo./ Mas tenho meus prantos,/ claridades
atrás do meu estômago humilde/ e
fortíssima voz pra cânticos de festa./
Quando escrever o livro com o meu nome/ e o nome
que eu vou pôr nele, vou com ele a uma igreja,/
a uma lápide, a um descampado,/ para chorar,
chorar, e chorar,/ requintada e esquisita como
uma dama.
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