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Antártida
Josiel Vieira
Minha querida,
Que Deus a abençoe. Em minhas orações, sempre peço para Deus cuidar de você. Como estão as coisas?
Estamos a nove quilômetros da linha de frente. Bem longe, é verdade, mas daqui ainda dá para ver confortavelmente a nossa artilharia castigar a linha inimiga.
Apesar de sabermos que os putos são nossos inimigos, dá uma certa pena ao ver os disparos luminosos que caem do céu limpo e azul e frio acertando bem no alvo. Não deve ser nada agradável ser alvejado dessa maneira, como se fossem formigas e sobre eles houvesse uma lupa gigante com seu foco de luz mortal. Há entre a gente quem diga que não é propriamente pena, mas um medo de que talvez a mesma coisa aconteça conosco; afinal agora quem leva a pior são eles, outra vez somos nós. E por isso os rapazes tentam levar o dia-a-dia pensando em outras coisas.
Olho ao redor. Uma coisa que nunca dá para esquecer é como é frio. Não há muita coisa para se usar numa fogueira por aqui. Não existe combustível e muito menos madeira. Só um deserto branco e um céu muito azul. Eu diria azul-cobalto. Alguns rapazes, num canto da trincheira escavada na neve, acenderam uma fogueira com os restos de algum material plástico e estão tentando assar um pingüim. É uma droga, pois o calor logo derrete o gelo e ensopa todo o fundo da trincheira. E sem contar que o coitado do bicho sempre fica com gosto de pneu queimado. Mas ninguém agüenta mais comer carne crua, e assim pingüim assado em plástico queimado se torna um alimento muito cobiçado.
Graças aos céus, é verão. O Sol cintila em minhas medalhas. Ainda assim, os rapazes sofrem com o frio; vestem apenas farrapos escurecidos. E eles sofrem ainda mais com o câncer de pele provocado pelos raios ultravioleta. Passamos muita necessidade aqui, meu amor; ainda bem que Deus sempre dá um jeito de nos ajudar. O inimigo também sofre de fome e frio. Tanto eles quanto nós temos grandes dificuldades de reabastecimento, uma vez que quem está em guerra aqui são países vizinhos continentais, os comboios com suprimentos- tanto os nossos quanto os deles - são atacados de maneira impiedosa ao longo de toda a rota pelo oceano. Navios são afundados e aviões cargueiros são abatidos, levando para o fundo do mar milhares de toneladas de combustível, munição, rações alimentares, baterias, remédios e uniformes acolchoados; Isso nos reduz a um estado primitivo. Muitas vezes os combates se dão com porretes, baionetas e pás. E com o estômago sempre faminto.
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