|
Os Tigres de Saigão
Miguel Pereira
Certamente nunca terão ouvido falar neles. Muitos estão presos.
Não têm identidade própria, nem existência legal. São os filhos e filhas de antigos oficiais e soldados do antigo regime Sul-Vietnamita. A maioria não se lembra dos seus pais. Eles nada têm, no entanto, intitulam-se Tigres. Diariamente reúnem provas dos crimes cometidos pelos oficiais corruptos que governam Saigão.
Salvaram-me a vida por várias vezes. Dedico este livro à sua luta por uma Sociedade Aberta, em que a Lei se aplique igualmente a todos.
Tentei narrar os acontecimentos tal qual aconteceram; no entanto, descrevo alguns eventos que não testemunhei pessoalmente. Como tal, este livro é em parte narrativo e em parte ficção. Alguns nomes, datas e locais tiveram de ser alterados, afim de evitar represálias contra aqueles a quem eu devo a minha vida.
Vietnam - Uma breve história.
Após o colapso em 1975 do Vietnam do Sul, e quando as tropas norte-vietnamitas tomaram Saigão, mais de dois milhões de Sul-vietnamitas fugiram. Aqueles que fugiram por mar, foram apelidados de “boat people”.
Como o partido Comunista não confiava nos sul-vietnamitas - até mesmo naqueles que apoiaram os Viet Cong - um grande número de oficiais militares e políticos do Norte foram enviados para o Sul para controlar directamente a situação.
Isto criou um enorme ressentimento muito entre os comunistas do Sul, que tinham ajudado os norte-vietnamitas, e agora se encontravam excluidos do poder.
A situação mantém-se ainda hoje. Quase todos os militares oficiais ou políticos influentes são do Norte.
A reunificação entre Norte e Sul foi gerida num clima de repressão em larga escala e criou um clima de medo e ódio entre a população do Sul. Centenas de milhares de pessoas que tinham ligações com o antigo regime, por mais ténuas que fossem, tiveram os seus bens confiscados e foram postas sob prisão sem julgamento, em chamados “campos de reeducação” em condições de escravatura. Mantendo a tradicional política de “extermínio de três gerações” que remonta ao feudalismo, e que consistia no extermínio dos familiares dos que cometeram a ofensa, embora de forma mais humana, não envolvendo eliminação física, a purga afectou as famílias dos que haviam apoiado o Governo. As famílias foram separadas de propósito, sistematicamente privadas de educação, direitos civis, e tratadas com incrível crueldade, numa situação que se mantém-se ainda hoje.
A maior parte não tem “ho khaus” (permissões de residência). Sem isso, a sua presença é tecnicamente ilegal. Não têm acesso a escolas, trabalhos ou licenças de negócio. Sobrevivem como podem, geralmente trabalhando para os militares que lhes impedem qualquer outra actividade. Neste sentido, muitos distritos de Saigão são, na realidade, campos de trabalho forçado. Os habitantes não se podem mudar e trabalham em negócios possuídos pelos militares e membros do partido.
Direitos civis pura e simplesmente não existem. Qualquer forma de protesto significa realojamento e fome nas “áreas restritas” ou prisão e tortura nas prisões do Sul do Vietnam.
O crime de rua que tornou o Vietnam tão famoso até 1973, foi reinventado e é controlado directamente por polícias à paisana. (Nem um único polícia fardado é visto no distrito n.º 1, depois do cair da noite.)
Qualquer turista que tenha a infelicidade ou que não saiba e ande só pelas ruas de Saigão, será logo assaltado, intimidado e voltará para o hotel. Tal como as Autoridades advertem, as ruas de Saigão não têm segurança.
Esta situação eu testemunhei em 1996. Muitas coisas mudaram, desde então. Por um lado, o controle da polícia é menos óbvio. Após a minha “Carta aberta ao Governo Vietnamita”, a prostituição tornou-se ilegal e tornou-se actividade obscura. Foi aprovada uma lei de “Prisão Administrativa”, que permite à polícia deter os suspeitos por um período de no máximo de 2 anos, (mas podendo o prazo ser renovado indefinidamente), dando cobertura legal ao que já existia na prática. Muitos presos morrem antes de serem libertados.
|