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O Cantochão
e a Sombra
Silveira de Souza
O
cantochão e a sombra
Foram dias de sono e abstinência.
Mas depois vieram os meus amigos – a bem dizer
quase irmãos –, e afirmaram que eu estava
pronto para fazer a travessia. Os rostos alegres
e resolutos, com os seus olhos sorridentes e comovidos,
eram o testemunho da verdade. Marcela trouxe a
vasilha de barro que continha o líquido
verde. Eu deveria beber, disse ela, como alguém
que se despede de uma terra estranha para chegar
à verdadeira terra. Aquela que é
única e exclusiva, mas permite compreender
todas as outras.
Com as mãos trêmulas
de fraqueza ou medo, segurei a vasilha de barro
e bebi o líquido verde de uma só
vez, até a última gota. Enquanto
deitava novamente no divã, ouvi Marcela
dizer para que mantivesse os braços, as
pernas, o corpo inteiro numa posição
de relaxamento, de completo relaxamento. Ainda
vi aqueles rostos amigos distribuídos ao
meu redor, ao redor do divã, Marcela e
Flávia, Emanuel, Augusto e o Zé
Carlos, todos a me olharem com alguma ansiedade,
todos tão distintos nas suas individualidades,
os traços tão característicos,
personalidades estruturadas em carne e sonho,
unidades complexas e diversificadas de matéria
com um núcleo impreciso de sonho, com a
essência de... Então fechei os olhos
e vi o grande túnel como um caminho de
sombra, o grande túnel que parecia estreitar-se
ao longo de sua extensão, mas que acenava
uma minúscula mancha de luz diluída
na distância quase impossível de
seu fundo. Mas eu sabia não existir fundo
e que a luz esmaecente era sinal daquilo que por
enquanto eu poderia alcançar, a primeira
etapa da travessia.
Minha irmã!
Por que estava ela, nua em suas carnes brancas,
na campina que se antecedia à floresta
silenciosa ao sopé das montanhas distantes?
Era minha irmã quem se aproximava, nua
em suas carnes brancas, o andar lento e elástico
de ancas bem delineadas, os seios alvos e firmes
como nunca os consegui ver, postos à mostra,
nua em suas carnes brancas, e o olhar que me fixava
com a expressão de franqueza e bondade
e inteligência que sempre tivera, e os lábios
sutilmente entreabertos num mal dissimulado trejeito
de sensualidade, que também muitas vezes
nascera secretamente dentro de mim e que eu rejeitara
todas as vezes com sentimentos de culpa e horror.
Mas era assim que em tantas ocasiões eu
a imaginara, aproximando-se, ela própria
tomando a iniciativa para a qual eu jamais tivera
coragem, e se chegasse bem perto, nua, e que os
braços macios enrodilhassem com suavidade
o meu pescoço, e os seios macios tocassem
o meu peito também nu, que os nossos olhos
se encontrassem cheios de compreensão e
silêncio e que uma música misteriosa
e selvagem dentro de nós marcasse a partir
daí o ritmo desordenado dos nossos movimentos
de liberação compulsiva.
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