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No Litoral do Tempo
Rodrigo de Souza Leão
Prefácio
A poesia nasceu como canto
e fábula. Sua origem se confunde com a
gênese dos mitos. Talvez apenas com versos
seja mesmo possível dizer o transcendente.
Por essa razão, o poema épico e
a fábula moral tenham entrado em declínio
na era da máquina e da técnica,
que não suportam a metafísica. A
complexa alegoria dantesca não teria lugar
na era do descartável. O poeta moderno,
porém, apesar de viúvo da cabala
e da tradição hermética,
não renunciou de todo à busca da
origem. Fazendo da lírica um teatro inquietante,
com máscaras às vezes burlescas,
ele demanda respostas junto à Esfinge-pensamento,
ainda que a sentença do oráculo
mental seja a pura perplexidade.
Rodrigo Leão é um poeta com vocação
para a narrativa, o tecido ficcional; em seu livro
de estréia, apresenta um enredo alegórico,
estruturado em dez seções temáticas,
sem um fio condutor linear. O argumento é
apresentado de maneira sutil, lúdica, sem
contrapor-se às filigranas da função
poética. Aqui, o poeta experimenta várias
técnicas e estilos, num conjunto multifacetado,
surpreendendo o leitor com flashes líricos
como “A garça interpreta em silêncio
/ Sua vocação para o branco” ou
violentos como “naus aportam no cais / esqueletos
de sombras / mausoléus ambulantes / nenhum
resto de homem."
Nos excertos mais concisos,
em especial na terceira parte do livro, Rodrigo
consegue versos de alto impacto, quase expressionistas,
como estes: “gatos / miragens / nesgas / de aurora
/ intermináveis / dores / erupções
/ e mordiscos / vulcões / bons apenas /
quando / mortos / comendo / crepúsculos”.
Dialogando com a poesia beat, Roberto Piva, Glauco
Mattoso, mas também com o melhor da tradição
canônica, como Cesário Verde e Sá-Carneiro,
Rodrigo Leão nos apresenta, em sua estética
do bizarro ou geometria do escarro, poemas de
elaborada feitura, fortes e contudentes, que merecem
leitura atenta.
Claudio Daniel
Setembro/2000
Quem? A eternidade,
É o mar que evade
Com o sol à tarde.
Rimbaud
(Ivo Barroso)
DILÚVIO
1
Seria uma honra ser escultura,
Mas me moldaram vivo e
Eu sou tudo e nada posso ser.
Tenho que olhar sempre o nada,
Foi me dito que tudo é sempre.
E assim vi as caravelas chegando.
Vi os gerânios crescendo sem
Poder tocar ou sentir o aroma.
Cheiro só de bosta. Os mendigos
Sempre deixavam seu quinhão
Aos meus pés. Até que um
morreu no fogo dourado
Desde então alguns ministros
Passaram a defecar aqui também.
Neste bronze de sardas .
Eu esperei a chuva. Eu fiz
A dança da chuva dentro de mim.
E me libertei num dia negro.
A água desaguou chuviscada.
Pirâmides de cabeça para baixo
Era mais merda. Era o dilúvio.
Assim sai da merda para merda.
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