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Art Noveau
Josiel Vieira
Obliquamente a luz vai entrando, outonal, revelando o polvilhado calmo da poeira suspensa no ar daquele corredor cheio de livros usados. Pela velha janela do sebo vinha, de forma tranqüila, o som indistinto, abafado e contínuo do trânsito da manhã da segunda-feira; ele deveria estar fazendo outra coisa, mas algo a que não sabia precisar o tocou para nada fazer, ou melhor, para se refugiar ali, no meio de coisas velhas e esquecidas, coisas que são assim como o sonho de alguém perdido no passado, e as coisas do sebo são bem assim — são resquícios da vida que não se tem mais de pessoas que nunca vimos. Mas ele amava coisas assim, e quando se sentava no chão de longas tábuas, com as pernas cruzadas, para ver em seu colo revistas, livros e discos sem importância, também ele se sentia como se fosse o sonho de alguém que foi embora. Ele possuía sentimentos muito esquisitos para alguém de sua idade, e era tudo o que possuía, já que nunca fora muito esperto; ah, além de sentimentos esquisitos, confusos e que sempre lhe escorriam da alma por entre seus dedos, ele também possuía uma camisa preta que tinha a gola sempre levantada, um cabelo intensamente preto despenteado, mas era cortado bem rente dos lados da cabeça, quase careca, revelando duas orelhas pontudas e ligeiramente avermelhadas como as de um vampiro, que de certa forma combinavam com as duas grandes olheiras de cadáver. Possuía ainda uma calça jeans desbotada e rasgada a encobrir suas pernas finas e compridas, que terminavam em duas grandes e gordas botas sujas, dessas que não têm cadarço.
Ele não era muito esperto; a bem da verdade se sentia um pouco retardado por não saber o que fazer de seu futuro. Se bem que não acreditasse que o futuro era algo que pudesse existir, e talvez fosse essa a razão que andasse assim sempre de preto como se participasse de um funeral todos os dias, ou talvez fosse essa sua incredulidade pelo futuro fizesse com que gostasse de se refugiar no sebo, aquele templo de coisas passadas, vidas terminadas e coisas esquecidas e amores perdidos, e tudo isso condensado em livros e discos velhos que eram deixados ali pela necessidade ou pela vontade de nos libertarmos do entulho emocional que vamos acumulando vida afora, até que a vida é por fim jogada fora também por nosso corpo que chega ao fim, e assim cadáveres vão para o cemitério e livros vão para o sebo — se bem que nem sempre é assim, e às vezes as coisas se confundem um pouco.
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