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As
Origens do Canto Gregoriano
MARIA
ALICE PEIXOTO RULL
Introdução
As raízes do Canto Gregoriano estão fincadas em
um tempo muito mais remoto do que imaginamos.
Na
verdade, o que ficou conhecido como Canto Gregoriano após
a morte de São Gregório Magno em 12/03/604, foi uma
evolução dos primeiros cantos produzidos pelas
civilizações mais antigas que povoaram a Mesopotâmia.
O
que sabemos do Canto Gregoriano como histórico é que o
mesmo foi amplamente difundido na Idade Média,
principalmente depois que o Papa Gregório Magno
organizou todo o canto existente e fundou a Schola
Cantorum.
Sabemos
também que estes cantos vieram dos primeiros cristãos
e que foram posteriormente “purificados”,
“desassociados” das práticas profanas às quais
alguns estavam ainda ligados, e assim, a Igreja Católica
“tomou-os” para a sua liturgia em torno do século
VI ( começos da Idade Média ).
Mas,
de onde os primeiros cristãos trouxeram, ou copiaram,
ou herdaram esses cantos, ou essa forma específica de
celebrar os seus rituais?
Para
obtermos esta resposta devemos nos reportar ao 8° milênio
a.C., ao período compreendido entre 8.000 e 6.000 anos
a.C., chamado JERICÓ NEOLÍTICO.
Começa o histórico
do Canto Gregoriano
Foi
entre 7.800 e 7.200 que grupos semi-nômades se
estabeleceram em Jericó, região situada na margem
ocidental do rio Jordão. Uma muralha cercando a aldeia
e uma torre de observação indicam a fixação deste
grupo de cerca de 10.000 pastores que não fabricavam a
cerâmica.
De
6.000 a 4.000 temos o período TAHUNENSE, em que, na
Palestina e na Jordânia, aparecem estatuetas de animais
e pequenas esculturas fálicas ( representando
os órgãos genitais ), todas encontradas dentro
de uma construção semelhante a um santuário. Temos
aqui, na passagem do sistema nômade para o semi-nômade
as primeiras manifestações religiosas, observadas
através da existência deste santuário.
Paralelamente,
na Anatólia, região da Ásia Menor, entre 6.500 e
5.500 existiu uma população que vivia da caça e da
agricultura, o que já indica a sua fixação. Neste sítio
arqueológico chamado Çatal
Hüyük, foi encontrada uma vasta documentação
religiosa, a qual inclui afrescos, adornos e esculturas.
Os afrescos mostram personagens em danças rituais
acompanhadas de outras que tocam arcos e tambores. Fica
evidente o conhecimento da música e a confecção de
instrumentos musicais. Aliás, o tambor, os instrumentos
de corda e os de sopro estão presentes nas tribos mais
primitivas, como os aborígenes, os pigmeus africanos e
os bosquimanos.
A
população de Çatal Hüyük já fabricava a cerâmica
e utilizava o cobre e o chumbo, além de percorrerem
certas distâncias para obter obsidiana, mármore e
alabastro. Este grupo já fixado praticava rituais
religiosos e fazia uso da música no seu acompanhamento.
Ainda não conservavam os seus mortos para prosseguirem
no além-túmulo, mas a temática dos seus rituais
versava sobre a Vida e a Morte.
Ressalte-se
que a cerâmica surgiu entre 6.000 e 5.500 em três
culturas: no vale do
Yarmuk, nos arredores de Jericó e ao longo da costa ( futura
Fenícia e região por onde peregrinaram os apóstolos
Pedro e Paulo no século I d.C.), com influências
da Síria e da Cilícia. Todas estas cerâmicas são
semelhantes e foram encontradas nos mesmos níveis de
escavação, tendo sido fabricadas, pois, na mesma época.
Houve uma evolução da arte ceramista após o
surgimento dos primeiros utensílios de cobre, quando os
artefatos de pedra diminuíram consideravelmente de
produção. A cerâmica tornou-se mais colorida e
adornada, cuja evolução propagou-se pelas regiões
vizinhas alcançando as ilhas gregas no Mar Egeu, e a Trácia
junto ao Mar de Mármara.
Segundo
Estrabão, historiador grego que viveu no século I
a.C., a música grega é originária da Trácia ( hoje
Bulgária ) e da Capadócia, região da Ásia Menor
situada próxima à Cilícia e à atual Armênia. Se as
cerâmicas são semelhantes e foram produzidas à mesma
época, houve um intercâmbio, uma ligação entre as
populações da Ásia Menor, das ilhas gregas e da costa
do Levante. Como conseqüência natural deve ter havido
também um intercâmbio, uma troca de culturas e
conhecimentos, incluso o conhecimento musical.
Mas,
em torno de 4.700 esse progresso todo foi destruído ( o
dilúvio ocorreu aproximadamente neste período ), e
apenas alguns sítios permaneceram em atividade.
Dentro
do mesmo período de tempo referido anteriormente -
6.500 a 5.000 - temos na Mesopotâmia, berço da civilização Suméria, a formação
das primeiras comunidades rurais em Jarmo,
datando de 6.500 segundo datações radiocarbônicas.
Aqui foram encontradas tumbas e estatuetas de argila com
formas animais. No Egito vamos encontrar mais tarde múmias
de animais para acompanhar os mortos no além-túmulo.
Os
comerciantes de Jarmo percorriam grandes distâncias
para adquirirem obsidiana da Turquia, local onde foi
encontrada a mesma cerâmica de Çatal Hüyük ( em
Mersin e nos arredores dos lagos Psídios - atual
Turquia ).
Entretanto,
foi somente em torno de 6.000 que aquelas comunidades se
instalaram definitivamente nas planícies e nos sopés
das montanhas, principalmente em Hassuna,
às margens do Tigre. A cerâmica de Jarmo é pintada
mas não apresenta figuras ou desenhos como a cerâmica
de Samarra,
por exemplo, que é igual à de Çatal Hüyük.
Aduz-se
que essas primeiras comunidades de Jarmo, ao se fixarem
desenvolveram um estilo próprio e menos elaborado da
arte ceramista, ainda sem contatos significativos com as
aldeias vizinhas. Ocorre que o estilo da cerâmica de
Samarra foi encontrado em Nínive, no médio Eufrates,
em Antioquia e no sopé dos montes Taurus, o que prova a
assimilação, na Mesopotâmia, da cultura de Çatal Hüyük,
localizada no planalto Anatólico, ainda muito antes da
ocorrência do dilúvio, e percorrendo o sentido
norte-sul.
Em
5.000 vamos encontrar a civilização de Tell
Halaf estendendo-se dos montes Zagros até o
Mediterrâneo, ou seja, percorrendo o sentido
leste-oeste. Seu centro mais importante é Arpachiyah,
na planície do alto Tigre, e a cerâmica é muito mais
refinada, branca ou colorida, às vezes polida, com
motivos naturalistas ou geométricos ( como na cerâmica
de Samarra ). Esta aprimorada técnica espalhou-se por
toda a Mesopotâmia, utilizando ainda os temas do bucrânio,
caveira de boi que muitos séculos/milênios mais tarde
os arquitetos gregos e romanos viriam a usar como
ornamentação dos altares.
Esta
civilização obteve um desenvolvimento geral muito
grande, atestado pelos trabalhos em metais,
principalmente cobre e chumbo, e pela pavimentação,
com seixos, das ruas de Arpachiyah. Trabalhavam também,
com muito esmero, a obsidiana e outras pedras duras, e
suas relações comerciais iam do planalto Anatólico ao
Golfo Pérsico.
Mais
uma vez houve a destruição de uma civilização no seu
apogeu, só que agora resultante da recém-chegada de um
povo do sul da Mesopotâmia, a futura importante
civilização de El-Obeid. Os antigos ocupantes resistiram até 3.300, especialmente em Tepe
Gawra, até serem absorvidos completamente pelos
novos colonizadores. Mas, que cultura trouxeram estes
novos colonizadores?
O
mais interessante é que no sul da Mesopotâmia a cerâmica
mais antiga encontrada é semelhante à cerâmica de
Hassuna, e datada de 6.000 (mesma época da instalação
definitiva das comunidades em Hassuna, às margens do
Tigre). Esta cerâmica, monocromática com motivos quase
sempre geométricos, foi encontrada em Kish, Ur,
Tello e Qalaa Hadj
Muhammed ( aldeia vizinha de Uruk, centro da futura
civilização suméria ). A cerâmica de Samarra
também apresenta motivos geométricos como triângulos,
losângos e a cruz gamada, e como vimos, espalhou-se por
extensa região no mesmo milênio, e ainda, é igual à
de Çatal Hüyük.
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