| COMO ESCREVER UMA
HISTÓRIA EM QUADRINHOS (ilustrado)
Gian Danton
APRESENTAÇÃO
Este trabalho é resultado de mais de 10 anos de prática de quadrinhos, seja
escrevendo, seja dando aulas sobre o assunto.
Nele estão unidos dois trabalhos distintos: o fanzine A DIFÍCIL ARTE DE ESCREVER
QUADRINHOS e o MANUAL DO ROTEIRISTA. Este último foi escrito em parceria com ABS Moraes
(creio que o mais talentoso escritor de quadrinhos da nova geração) e veiculado no site
IDÉIAS DE JECA-TATU (www.lagartixa.net/jecatatu ).
Nele, o neófito pode encontrar todas as dicas para se tornar um roteirista de
qualidade. Mas vale lembrar que nenhum livro, por melhor que seja, é capaz de realizar
milagres. Escrever quadrinhos, ao contrário do que pensa a maioria das pessoas, exige
muito esforço, dedicação e perseverança. E exige também muita leitura.
Tenho encontrado alguns garotos que sonham tornarem-se roteirista de quadrinhos, mas
só lêm gibis e, pior, só de super-heróis. Um bom roteirista deve ler de tudo: livros
de história, de psicologia, de antropologia, de filosofia, romances, contos e revistas
dos mais variados tipos. Em qualquer lugar pode estar uma idéia para uma história. Além
disso, você nunca sabe quando vai precisar de uma determinada informação. Então, por
via das dúvidas, leia tudo que cair nas suas mãos.
Antes de passar diretamente para a obra, gostaria de lembrar que ninguém faz nada
sozinho. E isso é ainda mais verdadeiro em quadrinhos. A revista Manticore foi o gibi
brasileiro mais premiado de todos os tempos. Embora eu fosse o roteirista, a revista foi
resultado de um trabalho de equipe e só a união e afinamento dessa equipe permitiu que o
resultado final fosse tão bom.
Da mesma forma, este livro, embora rigorosamente todos os textos sejam meus, é
resultado da ajuda de uma série de pessoas.
A primeira delas é o desenhista Antonio Eder Semião (Manticore), que fez várias
críticas e sugestões. Alguns capítulos, como o que fala de projetos e o exercício,
foram sugestões dele.
A Segunda pessoa igualmente importante é o já citado ABS Moraes. Além de Ter me
ajudado a escrever a versão que está no IDÉIAS DE JECA-TATU, ele contribuiu
sobremaneira com todo o resto.
Além disso, há uma série de outras pessoas que leram
os trabalhos anteriores e comentaram, contribuindo para sua melhoria em especial os
desenhistas José Aguiar (Manticore) e Joe Bennet (Homem-Aranha).
CAPÍTULO I
O QUE É UM ROTEIRO E PARA QUE SERVE
Durante algum tempo da história dos quadrinhos,
desenhista e roteirista eram a mesma pessoa. Em outras palavras, havia um só artista, que
bolava a história, escrevia, desenhava e, em alguns casos, até fazia o letreiramento.
Mas com o tempo foi possível perceber que nem todo bom desenhista é também um bom
roteirista. Para ser bastante sincero, logo ficou claro que alguns desenhistas eram quase
analfabetos.
Foi quando surgiu a figura do roteirista. Creio que o primeiro grande roteirista foi
Lee Falk, autor de Mandrake e Fantasma. Falk criou verdadeiras lendas e tinha total
controle sobre elas. Mas como ele podia fazer isso? Afinal, ele era apenas o escritor...
Como ele poderia fazer com que o desenhista ilustrasse a história exatamente como estava
em sua cabeça?
Se você respondeu "através do roteiro", ganhou um doce.
O roteiro é uma invenção genial. Ele permitiu que uma pessoa incapaz de desenhar um
círculo fizesse quadrinhos. Ele permitiu que artistas que não se conhecem, e nem mesmo
moram no mesmo país, possam trabalhar juntos. E, finalmente, o roteiro abriu a
possibilidade dos quadrinhos alcançarem uma qualidade literária e gráfica
inimaginável.
Portanto, o roteiro é um veículo através do qual o escritor consegue orientar o
desenhista, levando-o a ilustrar a história exatamente como ele imaginara.
******
ALGUMAS PALAVRINHAS QUE
VOCÊ DEVE CONHECER
Planos
Os planos surgiram no cinema, mas sua linguagem acabou sendo aproveitada nos
quadrinhos. Eles significam como o leitor irá ver o personagem ou a cena. Há diferenças
de autor para autor, mas em geral os planos são assim classificados:
Panorâmica Uma imagem bastante aberta de uma paisagem, com ou sem
personagem. Geralmente nos quadrinhos é usado o quadro vertical para as panorâmicas.
 |
Plano geral Aqui vemos apenas
o personagem e um pouco da paisagem, acima de sua cabeça e abaixo de seus pés.
(*) |
 |
|
 |
Plano americano Diz a lenda
que o plano americano foi criado pelos americanos para filmar as películas de faroeste.
Era necessário um plano que mostrasse bem o personagem, mas que também mostrasse a arma
pendurada na cintura. Assim foi criado um plano que mostrava o personagem pouco acima do
joelho até a cabeça.
 |
 |
|
 |
Plano médio Nesse caso, o
corte é feito à altura do peito, ou da barriga. É quase um close.
 |
 |
|
 |
Close ângulo fechado do
rosto do personagem.
 |
 |
|
 |
Big close e se você quiser
mostrar apenas os olhos? Use um big close. É a aproximação de alguma das partes da
cabeça, seja um olho, boca, nariz, ou orelha.
 |
 |
| *Desenhos
de Rovel |
|