E, num mundo dominado pela ciência e pela técnica, poucos assuntos ganham importância
tão fundamental quanto a ciência:
Como preservar o poder e o domínio dos cidadãos numa sociedade
irremediavelmente modelada e transformada pelo desenvolvimento e aplicações das ciências?
Corno fazer com que sejam consultados quando as opções científicas e tecnológicas
induzem a opções de modelos de sociedade? Como permitir a ocorrência de debates com
conhecimento de causa, como assegurar a transparência das competências e especialidades
que se confrontam sobre uma dada questão, uma vez que e/as servem a interesses diferentes?
A questão da democracia tecnológica está ligada a essas questões. (1)
Os roteiristas e desenhistas resolvem tomar partido a respeito das
questões científicas. E talvez essa seja a principal característica dessa relação na
era pós-moderna: os quadrinhos começam a tomar partido, ao invés de simplesmente
divulgar a ciência. Algo que, aliás, já podia ser percebido na História do
Universo, de Gonick.
Os quadrinistas não empreendem urna cruzada anti-ciência. Até porque
eles reconhecem que os cientistas trouxeram mudanças extremamente positivas para o nosso
mundo. É a ciência que permite ao homem realizar seus sonhos, seja voar, chegar á Lua,
ou ser capaz de ver e ouvir algo que está acontecendo do outro lado do mundo.
Mas os quadrinistas tomam partido de uma ciência que respeite a
natureza, que não esteja comprometida com objetivos militares, mas com valores
humanistas, que não tenha como emblema o "avançar a qualquer custo". Eles
anseiam por uma ciência que não seja tão determinista e linear, que permita entender a
complexidade das relações do mundo contemporâneo.
Talvez venha daí o fascínio pela teoria do caos. Grant Morrisou e
Alan Moore, os dois roteiristas que mais trataram de questões da ciência, ambos, apesar
de suas divergências, voltam suas esperanças para a teoria do caos.
Morrison falou claramente na teoria do caos em Asilo Arkhan e Homem-Animal.
Para que não restassem dúvidas, ele tratou meio de introduzir um fractal da familia
Mandelbrot numa das HQs do herói ecológico.
Moore, além de basear Watchmen na teoria do caos, como foi demonstrado
ao longo desta dissertação, deu declarações à imprensa a respeito do assunto, nomeou
seu trabalho seguinte de Mandelbrot Set (nome posteriormente mudado para Big Numbers) e
chegou a produzir um filme sobre o assunto:
Os videomakers Alan Moore e Bill Sieniciewcz trancaram-se recentemente
no que eles chamam de "um antro em Northampton", a uma hora de Londre; só para
traduzir em termos caóticos a queda do muro de Berlim - o resultado desse "delírio
criativo" foi belo filme de arte premiado em vários festivais europeus.(2)
Com Moore e Morison surge algo que antes podia ser apenas entrevisto e
adivinhado: a divulgação de paradigmas científicos nas histórias em quadrinhos.
Kuhn argumenta que, quando ocorre urna revolução científica, duas
visões de inundo entram em conflito. Entretanto, "a superioridade de uma teoria
sobre a outra não pode ser demonstrada através de uma discussão. Insisti, em vez disso,
na necessidade de cada partido tentar convencer através da persuasão".(3)
O que irá definir a vitória de um paradigma não é, necessariamente,
o fato dele ser mais científico que o outro, mas sua capacidade de persuadir.
Para descobrir como as revoluções cientificas são produzidas,
teremos, portanto, que examinar não apenas o impacto da Natureza e da Lógica, mas
igualmente as técnicas de argumentação persuasivas que são eficazes no interior dos
grupos muito especiais que constituem a comunidade dos cientistas.(4)
Para Gleick, a visão epistemológica de Kuhn pode ser usada,
perfeitamente, para explicar o desenvolvimento da teoria do caos:
Uma nova ciência nasce de uma outra, que chegou a um ponto morto. Com
freqüência uma revolução tem um caráter interdisciplinar - suas descobertas principais
vêm, muitas vezes, de pessoas que se aventuram fora dos limites normais de suas
especialidades. Os problemas que preocupam esses teóricos não são considerados linhas de
investigação legítimas. Propostas de tese são rejeitadas, e artigos não são
publicados. Os próprios teóricos não têm certeza de que identificariam a solução, se a
encontrassem. Aceitam colocar em risco suas carreiras. Uns poucos livres-pensadores
trabalham sozinhos e incapazes de explicar onde vão, receosos até mesmo de dizer aos
colegas o que estão fazendo - essa imagem romântica está no centro do esquema
de Kuhn, e tem ocorrido na vida real, repetidamente, na investigação do caos.(5)
Gleick conta que boa parte dos cientistas que se voltavam para o caos
sentiram o desestímulo do meio acadêmico, mas sentiam também a animação intelectual
que vem das coisas realmente novas:
Para Freeman Dyson, do Instituto de Estudos Avançados, a informação
sobre o caos foi "como um choque elétrico" na década de 70. Outros sentiram que
pela primeira vez em suas vidas profissionais estavam testemunhando uma verdadeira mudança
de paradigma, unia transjórmaçáo de um maneira de pensar.(6)
Kuhn lembra que essa resistência é mais forte junto aos cientistas
que estão mais tempo no campo:
Max Planck, ao passar em revista a sua carreira no Scientfic
Autobiography observou tristemente que "uma nova verdade científica não triunfa
convencendo seus oponentes e fazendo com que vejam a luz, mas porque seus oponentes
finalmente morrem e uma nova geração cresce familiarizada com ela". (7)
Um paradigma emergente, se quiser suplantar o antigo, deve investir nas
novas gerações de cientistas.
Segundo Kuhn, se o novo paradigma perdura por algum tempo e continua a
dar frutos, alguns cientistas começam a se interessar em saber o porque de seus
resultados."Essa reação ocorre mais facilmente entre os que acabam de ingressar
na profissão, por que ainda não adquiriram o vocabulário e os compromissos especiais de
qualquer um dos grupos".
É aí, provavelmente, que entra o papel das histórias em quadrinhos.
Dificilmente um cientista contrário à teoria do caos vai se deixar converter pela
leitura de Watchmen ou Homem-Animal. Mas essas histórias têm o mérito de
acostumar uma geração à visão de mundo de um novo paradigma. As HQs atingem justamente
um público que está mais propenso a aceitar novas idéias. Elas atingem pessoas que
provavelmente ainda nem são cientistas, mas que irão se familiarizar com termos como
efeito borboleta e fractal.
Por outro lado, essas histórias em quadrinhos, ao discutirem valores
morais e éticos no que diz respeito à ciência também convence os jovens da falácia do
imperativo "avançar a qualquer custo". Esses jovens terão mais facilidade em
aceitar uma ciência que não agrida a natureza e que, pelo contrário, ajude a
preservá-la; uma ciência que liberte, e não seja usada para o domínio, para a
manipulação política e ideológica. Eles estarão mais propensos a procurarem
alternativas para a utilização de animais em experiências científicas e, provavelmente
não verão com maus olhos a perspectiva humanista nas ciências.
Embora não tenham resultado positivo a curto prazo a divulgação de
novos paradigmas na forma de histórias em quadrinhos pode ter ótimos resultados a longo
prazo, ao acostumar um nova geração de cientistas com os termos e noções desse
paradigma.
Aqui nos atemos mais demoradamente nos quadrinhos americanos, em
específico aqueles escritos por roteiristas britânicos. É bem provável, no entanto,
que o mesmo fenômeno de tornada de posição em favor de um paradigma científico
emergente possa ser observado também nos quadrinhos europeus, japoneses e
latino-americanos. Um exemplo brasileiro talvez seja a personagem Valéria Virtual, de
Flávio Calazans, que divulga a geometria fractal e a realidade virtual em suas
histórias.