A DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA NOS QUADRINHOS:
ANÁLISE DO CASO WATCHMEN

 

 

wbGian Danton


E, num mundo dominado pela ciência e pela técnica, poucos assuntos ganham importância tão fundamental quanto a ciência:

Como preservar o poder e o domínio dos cidadãos numa sociedade irremediavelmente modelada e transformada pelo desenvolvimento e aplicações das ciências? Corno fazer com que sejam consultados quando as opções científicas e tecnológicas induzem a opções de modelos de sociedade? Como permitir a ocorrência de debates com conhecimento de causa, como assegurar a transparência das competências e especialidades que se confrontam sobre uma dada questão, uma vez que e/as servem a interesses diferentes? A questão da democracia tecnológica está ligada a essas questões. (1)

Os roteiristas e desenhistas resolvem tomar partido a respeito das questões científicas. E talvez essa seja a principal característica dessa relação na era pós-moderna: os quadrinhos começam a tomar partido, ao invés de simplesmente divulgar a ciência. Algo que, aliás, já podia ser percebido na História do Universo, de Gonick.

Os quadrinistas não empreendem urna cruzada anti-ciência. Até porque eles reconhecem que os cientistas trouxeram mudanças extremamente positivas para o nosso mundo. É a ciência que permite ao homem realizar seus sonhos, seja voar, chegar á Lua, ou ser capaz de ver e ouvir algo que está acontecendo do outro lado do mundo.

Mas os quadrinistas tomam partido de uma ciência que respeite a natureza, que não esteja comprometida com objetivos militares, mas com valores humanistas, que não tenha como emblema o "avançar a qualquer custo". Eles anseiam por uma ciência que não seja tão determinista e linear, que permita entender a complexidade das relações do mundo contemporâneo.

Talvez venha daí o fascínio pela teoria do caos. Grant Morrisou e Alan Moore, os dois roteiristas que mais trataram de questões da ciência, ambos, apesar de suas divergências, voltam suas esperanças para a teoria do caos.

Morrison falou claramente na teoria do caos em Asilo Arkhan e Homem-Animal. Para que não restassem dúvidas, ele tratou meio de introduzir um fractal da familia Mandelbrot numa das HQs do herói ecológico.

Moore, além de basear Watchmen na teoria do caos, como foi demonstrado ao longo desta dissertação, deu declarações à imprensa a respeito do assunto, nomeou seu trabalho seguinte de Mandelbrot Set (nome posteriormente mudado para Big Numbers) e chegou a produzir um filme sobre o assunto:

Os videomakers Alan Moore e Bill Sieniciewcz trancaram-se recentemente no que eles chamam de "um antro em Northampton", a uma hora de Londre; só para traduzir em termos caóticos a queda do muro de Berlim - o resultado desse "delírio criativo" foi belo filme de arte premiado em vários festivais europeus.(2)

Com Moore e Morison surge algo que antes podia ser apenas entrevisto e adivinhado: a divulgação de paradigmas científicos nas histórias em quadrinhos.

Kuhn argumenta que, quando ocorre urna revolução científica, duas visões de inundo entram em conflito. Entretanto, "a superioridade de uma teoria sobre a outra não pode ser demonstrada através de uma discussão. Insisti, em vez disso, na necessidade de cada partido tentar convencer através da persuasão".(3)

O que irá definir a vitória de um paradigma não é, necessariamente, o fato dele ser mais científico que o outro, mas sua capacidade de persuadir.

Para descobrir como as revoluções cientificas são produzidas, teremos, portanto, que examinar não apenas o impacto da Natureza e da Lógica, mas igualmente as técnicas de argumentação persuasivas que são eficazes no interior dos grupos muito especiais que constituem a comunidade dos cientistas.(4)

Para Gleick, a visão epistemológica de Kuhn pode ser usada, perfeitamente, para explicar o desenvolvimento da teoria do caos:

Uma nova ciência nasce de uma outra, que chegou a um ponto morto. Com freqüência uma revolução tem um caráter interdisciplinar - suas descobertas principais vêm, muitas vezes, de pessoas que se aventuram fora dos limites normais de suas especialidades. Os problemas que preocupam esses teóricos não são considerados linhas de investigação legítimas. Propostas de tese são rejeitadas, e artigos não são publicados. Os próprios teóricos não têm certeza de que identificariam a solução, se a encontrassem. Aceitam colocar em risco suas carreiras. Uns poucos livres-pensadores trabalham sozinhos e incapazes de explicar onde vão, receosos até mesmo de dizer aos colegas o que estão fazendo - essa imagem romântica está no centro do esquema de Kuhn, e tem ocorrido na vida real, repetidamente, na investigação do caos.(5)

Gleick conta que boa parte dos cientistas que se voltavam para o caos sentiram o desestímulo do meio acadêmico, mas sentiam também a animação intelectual que vem das coisas realmente novas:

Para Freeman Dyson, do Instituto de Estudos Avançados, a informação sobre o caos foi "como um choque elétrico" na década de 70. Outros sentiram que pela primeira vez em suas vidas profissionais estavam testemunhando uma verdadeira mudança de paradigma, unia transjórmaçáo de um maneira de pensar.(6)

Kuhn lembra que essa resistência é mais forte junto aos cientistas que estão mais tempo no campo:

Max Planck, ao passar em revista a sua carreira no Scientfic Autobiography observou tristemente que "uma nova verdade científica não triunfa convencendo seus oponentes e fazendo com que vejam a luz, mas porque seus oponentes finalmente morrem e uma nova geração cresce familiarizada com ela". (7)

Um paradigma emergente, se quiser suplantar o antigo, deve investir nas novas gerações de cientistas.

Segundo Kuhn, se o novo paradigma perdura por algum tempo e continua a dar frutos, alguns cientistas começam a se interessar em saber o porque de seus resultados."Essa reação ocorre mais facilmente entre os que acabam de ingressar na profissão, por que ainda não adquiriram o vocabulário e os compromissos especiais de qualquer um dos grupos".

É aí, provavelmente, que entra o papel das histórias em quadrinhos. Dificilmente um cientista contrário à teoria do caos vai se deixar converter pela leitura de Watchmen ou Homem-Animal. Mas essas histórias têm o mérito de acostumar uma geração à visão de mundo de um novo paradigma. As HQs atingem justamente um público que está mais propenso a aceitar novas idéias. Elas atingem pessoas que provavelmente ainda nem são cientistas, mas que irão se familiarizar com termos como efeito borboleta e fractal.

Por outro lado, essas histórias em quadrinhos, ao discutirem valores morais e éticos no que diz respeito à ciência também convence os jovens da falácia do imperativo "avançar a qualquer custo". Esses jovens terão mais facilidade em aceitar uma ciência que não agrida a natureza e que, pelo contrário, ajude a preservá-la; uma ciência que liberte, e não seja usada para o domínio, para a manipulação política e ideológica. Eles estarão mais propensos a procurarem alternativas para a utilização de animais em experiências científicas e, provavelmente não verão com maus olhos a perspectiva humanista nas ciências.

Embora não tenham resultado positivo a curto prazo a divulgação de novos paradigmas na forma de histórias em quadrinhos pode ter ótimos resultados a longo prazo, ao acostumar um nova geração de cientistas com os termos e noções desse paradigma.

Aqui nos atemos mais demoradamente nos quadrinhos americanos, em específico aqueles escritos por roteiristas britânicos. É bem provável, no entanto, que o mesmo fenômeno de tornada de posição em favor de um paradigma científico emergente possa ser observado também nos quadrinhos europeus, japoneses e latino-americanos. Um exemplo brasileiro talvez seja a personagem Valéria Virtual, de Flávio Calazans, que divulga a geometria fractal e a realidade virtual em suas histórias.

FIM

Notas
(1)FAYARD. La Comunication Scientifique Publique.
(2)GREENHALGH, Laura. EI/e. Outubro de 1990. p. 174.
(3)Khun, Thomas. A Estrutura das Revoluções Cientificas. São Paulo, Perspectiva, 1992, p. 244
(4)ibid. p. 128
(5)GLEICK.Jamcs. Caos: A Criação de Uma Nova Ciência. Rio dc Janeiro, Campus, 1991,p. 33
(6)lbid.p.33
(7)Kulmn.op.ci Lp. 191

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