A DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA NOS QUADRINHOS:
ANÁLISE DO CASO WATCHMEN

 

 

wbGian Danton
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Contos do cargueiro negro

A história de piratas que um garoto lê numa banca de revistas pode ser vista como uma metáfora da própria trama de Watchmen. O marinheiro tentando salvar sua vila é uma versão, em ponto pequeno, de Ozimandias tentando salvar o mundo do holocausto nuclear. É a auto-semelhança em termos de narrativa. Fonte: MOORE, Alan & GIBBONS, Dave. Watchmen, v 2-1. São Paulo, Abril, 1988-89.

PÁGINA 20

No quadro, o Comediante conversa com políticos sobre Watergate em tom de pilhéria. A vitória na guerra do Vietnã aumentara a popularidade de Nixon o suficiente para que ele não fosse afetado pelo escândalo de Watergate. A fala de Blake sugere que ele pode ter sido responsável pelo assassinato de kennedy. A festa que aparece no flash back é justamente para comemorar a vitória no Vietnã.

Nos últimos quadros, Laurie acusa Blake de ter tentado violentar sua mãe. Há um detalhe interessante aqui: a posição dos personagens é praticamente a mesma da página 15. No quadro seis da página 15, o Comediante e Laurie são vistos de perfil. O Comediante segura o queixo de Laurie, como se a examinasse. Essa posição é repetida no quadro 8 da página 20. No quadro sete da página 15, o Comediante aparece fumando e Laurie em segundo plano. A mesma cena é repetida no quadro sete da página 20, com a diferença de que agora Blake está à esquerda e não à direita. Os autores tiveram essa preocupação para dar aos eventos a característica simétrica de um fractal.

PÁGINA 21

Nessa página temos a repetição do quadro com perfume Nostalgia, reforçando o sentido de ampulheta. Laurie está desistindo de convencer Manhattan a salvar o planeta.

PÁGINA 22

Temos, aqui, uma outra visão do castelo de Manhattan. Sob essa perspectiva ele se parece ainda mais com um relógio.

A fala de Laurie acabará tendo uma conotação interessante, mais adiante: "Sabe de uma coisa? Você errou! Disse que eu ia acabar chorando... olhe só para mim... nenhuma lágrima! Sendo assim... talvez você esteja errado sobre muitas outras coisas". (1)

PÁGINA 23

A partir desta página, temos o clímax do capítulo. Até então, Laurie acreditava que seu pai verdadeiro era Hodded Justice, o antigo namorado de sua mãe. Cada cena do presente é intercalada com uma cena de flash back, em cortes rápidos. A chave da questão está na frase do Comediante: "Não se pode mais conversar com a próp... com a filha de uma velha amiga?".

Manhattan percebe e argumenta que ela está fugindo de algo. "Não seja idiota! Fugindo do quê? E-eu nunca... jamais evitei ou fugi da verdade", responde a moça. Nos quadros dois, quatro, seis e oito, o desenho resgata um acontecimento e o texto remete a outro. A narrativa vai se tornando mais caótica à medida em que os pensamentos de Laurie galopam em direção à revelação final.

PÁGINA 24-25

Na página 24 Laurie completa mentalmente a frase do Comediante: "Não se pode mais conversar com a próp.. pria filha?" e descobre que ele é seu pai. A revelação é particularmente chocante porque Laurie odeia Blake, como fica demonstrado na página 21. A revelação demonstra que Sally teve encontros amorosos com Blake, mesmo depois de ter sido vítima de uma tentativa de estupro. Revoltada, Laurie joga o vidro de Nostalgia contra o castelo de Manhattan e percebemos que a sequência do perfume, que é, inclusive, capa do capítulo, pertence a esse momento.

O texto dos últimos quadros cria uma metáfora para a vida de Laurie. Até ali ela vivia numa castelo dentro de uma bolha de vidro; o castelo construído por sua mãe quando essa decidiu que a menina seria uma super-heroina. A revelação da identidade de seu pai faz com que o castelo de fadas desmorone. É bastante simbólico, portanto, que o castelo do Dr. Manhattan desabe na página 25.

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EFEITO BORBOLETA EM WATCHMEN

A reunião realizada pelo Capitão Metrópolis em 1966 configura-se como uma efeito borboleta que vai modificar a vida de quase todos os personagens de Watchmen. É ali que Ozimandias tem a idéia do plano para salvar o mundo, e é por ter descoberto o plano de Ozimandias que o Comediante morre. Também é naquela reunião que o Dr. Manhattan conhece Laurie e é a partir dos acontecimentos daquela noite que ela descobre a identidade de seu pai. Fonte: MOORE, Alan & GIBBONS, Dave. Watchmen, v. 1.2. São Paulo, Abril, 1988, p. 19.

PÁGINAS 26-27

Aqui chegamos ao âmago da discussão do capítulo. Manhattan muda de idéia a respeito dos seres humanos. Ele se convence de que a vida é um milagre:

Milagres termodinâmicos... eventos com probabilidades astronômicas de não ocorrer... tais como o oxigênio transformar-se em ouro. Em cada acasalamento humano, um milhão de espermatozóides procuram um óvulo. Multiplique essas probabilidades por incontáveis gerações... encontrando... gerando... esse exato filho... aquela exata filha... Sua mãe amou um homem que ela tinha todos os motivos para odiar. Dessa união, dos bilhões de crianças competindo para a fertilização, foi você, apenas você que emergiu. Destilar uma forma tão específica daquele caos de improbabilidades, é como transformar ar em ouro... isso é o máximo de inverossimilhança. O milagre termodinâmico. (2)

Como já foi dito na introdução, quanto maior o grau de improbabilidade de um evento, mais caótico ele é. Para Manhattan, o nascimento não só de Laurie, como de qualquer um no mundo é o máximo de improbabilidade. Milhões de espermatozóides procuram o óvulo, mas só um o fecunda. Se somarmos os problemas de gestação, as possibilidade de morte tanto da mãe quanto da criança, temos que o nascimento de qualquer um é um "milagre caótico".

Moore parece fazer eco a Edgar Morin, quando este diz:

Quando penso na minha vida, vejo que sou fruto de um encontro muito improvável entre meus progenitores. Vejo que sou produto de um espermatozóide salvo entre cento e oitenta milhões que, não sei por sorte ou infortúnio, se introduziu no óvulo de minha mãe. Soube que fui vítima de manobras abortivas, que deram resultado com meu predecessor, mas ninguém saberá dizer porque escapei à arrastadeira (...) E cada vida é tecida dessa forma, sempre com um fio de acaso misturado com o fio da necessidade. Sendo assim, não são fórmulas matemáticas que vão dizer-nos o que é uma vida humana, não são aspectos exteriores sociológicos que a vão encerrar no seu determinismo. (3)

É interessante notar que o relevo marciano expressa a mesma face sorridente do botton do Comediante. Uma figura que ganha contornos fractais pela repetição ao longo da obra. É bastante emblemático que Manhattan tenha sua revelação justamente numa cena em que o conjunto forma um fractal. É uma revelação intimamente ligada à volta do humanismo e à uma nova visão da ciência, como se depreende da fala de Manhattan: "Mas o mundo está tão cheio de pessoas, tão abarrotado desses milagres, que eles se tornam comuns. E nós esquecemos... Eu esqueço".

O último balão da página 27 parece mesmo ter sido tirado de um texto de Kuhn, tal a semelhança com a concepção de revolução científica e mudança de paradigma: "Nós olhamos continuamente para o mundo, e ele se torna enfadonho em nossas percepções. Contudo, visto de um novo ângulo, ele ainda pode ser surpreendente. Excitante".(4)

Moore, evidentemente, identifica a teoria do caos com um novo paradigma e advoga sua causa.

PÁGINA 28

Nesta página a visão do leitor continua se afastando de Marte até que reste apenas o espaço, o vácuo, a escuridão. Temos aqui três legendas em que o Dr. Manhattan diz a Laurie para enxugar as lágrimas e dá a entender que voltarão à Terra para tentar salvá-la do holocausto nuclear.

Na página 17 Manhattan havia dito que o episódio terminaria com laurie em lágrimas, sugerindo que a guerra nuclear seria inevitável e que a garota não conseguiria convencê-lo a intervir. Há algo de curioso nisso se lembrarmos da frase de Farmer: "O sitema é determinista, mas não sabemos o que ele fará da próxima vez". Manhattan é capaz de prever que Laurie irá chorar, mas não a razão de seu choro. O interior de um ser humano escapa ao determinismo laplaciano:

O interior de um ser humano e possivelmente o comportamento de toda a sociedade, obedecia às regras do caos. (...)As mesmas equações que explicavam os fluxos caóticos de elétrons também diziam porque uma mulher chora. Só por esse motivo ele (Dr. Manhattan) volta a se interessar pelos mortais comuns. (5)

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O DESTINO DO MUNDO NAS MÃOS DE UM IDIOTA

O final de Watchmen pretende exemplificar o conceito de efeito borboleta, segundo o qual pequenas alterações podem provocar grandes mudanças. Na página acima, Seymor, a figura mais patética da história é encorajado a escolher a manchete da próxima edição do jornal New Frontiersman. No último quadro vemos a mão de Seymor se aproximando do diário de Rorschach, que conta todo o plano de Ozimandias. A figura na camisa reproduz o botton que vemos no primeiro quadrinho de Watchmen. Fonte: MOORE, Alan & GIBBONS, Dave. Watchmen, v. 6-2. São Paulo, Abril, 1989.

O último quadrinho é totalmente negro, com uma ou outra estrela (Na edição brasileira há uma falha de impressão que deixou alguns pontos brancos tanto nesta quanto na cena da primeira página). O capítulo começa e termina, portanto, com a mesma cena, ou seja, um quadro negro. Só que agora vemos algumas estrelas (o significado fractal dessa repetição de cenas já foi explica nos capítulos anteriores) o que combina com a citação de Jung, retirada do livro Memórias, Sonhos e reflexões: "Pelo que podemos perceber, o único propósito da existência humana é acender uma luz nas trevas da mera existência".

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Notas
(1)MOORE, op. cit., v.5-1, p. 22.
(2)Ibid, p. 23.
(3)MOORE, op. cit., p. 26-27.
(4)MORIN, op. cit.,p. 176
(5)Recado, 58. São Paulo, Devir, p. 4

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