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 O castelo de Manhattan
O castelo do Dr. Manhattan foi construído a partir do princípio da curva de
Koch, uma figura complexa formada de elementos redundantes. A extensão das duas figuras
é quase infinita, embora elas ocupem um espaço finito. A curva de Koch é formada de
triângulos, o castelo de peças de relógio.
Fonte da curva de Koch: GLEICK, James. Caos: a criação de uma nova ciência.
Rio de Janeiro, Campus, 1991, p. 94. Fonte do quadrinho: MOORE, Alan & GIBBONS, Dave. Watchmen,
v. 5- 1. São Paulo, Abril, 1989, p. 9.
O grau de entropia é elevadíssimo. Ao menos teoricamente, Ozimandias
só pode focar sua atenção em um televisor, permanecendo os outros 35 como subliminares.
Flávio Calazans explica que a psicologia define subliminar como
qualquer estímulo abaixo do limiar da consciência, estímulo que - não obstante, produz
efeitos na atividade psíquica. (1)
O psicólogo Carl Gustav Jung propôs um modelo em que a consciência
seria um holofote, iluminando as áreas de interesse. Tudo que estivesse na penumbra de
tal foco seria subliminar.(2)
Wilson Key levantou uma explicação fisiológica para o fenômeno.
Abordando a fisiologia do olho humano, ele descobriu que a fóvea, parte central do olho,
do tamanho de uma cabeça de alfinete e composta por células cones, é o foco da visão
consciente: "Key aprofunda esse conceito fisiológico quando afirma que a visão
periférica, canto do olho, composto de células bastonetes, seria o responsável pelo
registro visual das percepções subliminares".(3)
Calazans afirma que a informação subliminar é destinada ao
inconsciente, sendo pré-verbal, icônica e figurativa. Baseando-se na semiótica de
Peirce, ele encaixa o subliminar no eixo paradigmático - similaridade, modelo, íncone,
não verbal, analógico. A informação consciente se encaixa no eixo sintagmático -
contigüidade, símbolos, verbal, lógico, hierárquico.(4)
O que Ozimandias propõe em seu discurso é aquilo que poderíamos
chamar de visão caótica, uma maneira de entender e observar fenômenos entrópicos. No
caso, a multitela é a representação do sistema não-linear que compreende as relações
políticas e sociais deste planeta.
Wiener distinguia as categorias demônio maniqueu e demônio
agositiniano. Os fenômenos físicos são demônios agostinianos, pois seguem regras,
leis, constantes, que não mudam. O físico "não precisa temer que,
eventualmente, a natureza venha a descobrir-lhe os ardis e métodos e, em consequência,
mudar de tática".(5)
Já o demônio maniqueu é enfrentado pelos guerreiros e jogadores. Ele
"é um antagonista como outro qualquer, decidido a conquistar a vitória, e que
usará de qualquer recurso de astúcia e dissimulação para alcançá-la".(6)
Segundo Epstein, o cientista social lida com o demônio maniqueu:
As leis que descobre sobre o desempenho dos indivíduos ou dos grupos
podem ser traduzidas, em certos casos, em dominação. Os "objetos" deste
conhecimento, se conscientes desse fato, podem, numa certa medida e também em certas
circunstâncias, engendrar uma mudança de seus comportamentos e consequentemente uma
alteração das "leis" que a regem.(7)
Diante de tal sistema, que representa um fluxo constante de
informações(8) a estratégia clássica e determinista encontra sérias dificuldades.
Para lidar com esse sistema, Ozimandias propõe que se evite uma análise racional
e classificadora. Os eventos sociais, sendo esquivos e transitórios, devem ser entendidos
com rapidez. (9)
Do mesmo modo que uma previsão metereológica pode ser bastante
acertada a curto prazo e não ter valor algum a longo prazo, as previsões sociais perdem
valor rapidamente. Essa é a razão pela qual poucos analistas foram capazes de prever a
queda do muro de Berlin: "Grandes suposições quanto a esse futuro devem ser
afastadas... podemos contudo lançar hipóteses sobre sua psicologia".(10)
Uma vez que, enquanto se assiste a multitela, a maior parte das
informações é adquirida de maneira subliminar e, tendo em vista que o subliminar é
destinada ao subconsciente, a melhor resposta a esse estímulo deve ser uma resposta
intuitiva. Em outras palavras, Ozimandias está dizendo que é impossível lidar com
fenômenos caóticos, como os sociais, de acordo com a lógica clássica, hierarquizadora
e excludente. Isso porque fenômenos entrópicos interagem de tal maneira que haja um
fluxo constante de informações.
Uma das principais características das figuras fractais
é a semelhança. Alan Moore e Dave Gibbons usaram o conceito em Watchmen. A mesma figura
é reproduzida em um botton caído em uma sarjeta e em uma cratera em marte. Da mesma
forma que um fractal, se diminuirmos a escala, encontraremos figuras semelhantes (o
fractal da família Mandelbrot aparece aqui inteiro e ampliado).
Fonte: MOORE, Alan & GIBBONS, Dave. Watchmen.
São Paulo, Abril, 1988-89.
Fonte do fractal: GLEICK, James. Caos: a criação de uma nova ciência.
Rio de Janeiro, Campus, 1991, p.112.
Ozimandias refere-se a Willian Burrgoughs que, em seu livro Nucked
Lunch, teria antecipado a técnica usada por ele. A técnica teria um outro precursor
nos xamãs, que faziam previsões sobre o futuro observando as vísceras de um bode
espalhadas ao acaso.
Mais à frente, Ozimandias refere-se a outra situação que pode ser
considerada como uma visão caótica:
Alexandre retornou à Babilônia para morrer de uma infecção
aos trinta e três anos. Ali, entre os templos da cidade, eu finalmente vi suas falhas...
meu herói não havia unificado o mundo e não sobreviveu a ele. Desiludido, mas determinado
a completar minha odissséia, fui visitar seu túmulo em Alexandria. Na véspera de
meu retorno à América, vaguei pelo deserto e provei um punhado de haxixe. O
resultado foi uma visão que me transformou. Voltando na história, eu ouvi reis mortos
andando sob o chão e fanfarras soando através de crânios humanos. Alexandre tinha
ressuscitado uma era de farós. Sua sabedoria verdadeiramente imortal, agora me inspirava.
Sua magnificiência intelectual encorajara Ptolomeu a pesquisar o pivô do
universo. Erastóstenes mediu o mundo usando apenas sombras...(11)

FRACTAIS EM WATCHMEN
Alan Moore e Dave Gibbons procuraram iniciar e terminar os capítulos de
Watchmen com figuras semelhantes para criar o mesmo tipo de simetria de um fractal. Fonte:
MOORE, Alan & GIBBONS, Dave. Watchmen. São Paulo, Abril, 1988-89.
No livro As Portas da percepção, lembra a teoria segundo a qual a
função da memória seria eliminativa e não produtiva:
Refletindo sobre minha experiência, vejo-me levado a concordar com o
eminente filósofo de Cambridge, Dr. C.D. Broad "que será bom consideremos, muito mais
seriamente do que até então temos feito, o tipo de teoria estabelecida por Bergson, com
relação à memória e ao senso de percepção. Segundo ela, a função do cérebro e do
sistema nervoso é, principalmente, eliminativa e não produtiva. Cada um de nós é
capaz de lembrar-se, a qualquer momento, de tudo que já ocorreu conosco, bem como de se
aperceber de tudo o que está acontecendo em qualquer parte do universo. A função do
cérebro e do sistema nervoso é proteger-nos, impedindo que sejamos esmagados e confundidos
por essa massa de conhecimentos, na sua maioria inúteis e sem importância, eliminando
muita coisa que, de outro modo, deveríamos perceber ou recordar constantemente, e deixando
passar apenas aquelas poucas sensações selecionadas que, provavelmente, terão utilidade
na prática". De acordo com tal teoria, cada um de nós possui a Onisciência. Mas,
posto que somos animais, o que mais nos preocupa é viver a todo custo. Para tornar
possível a sobrevivência biológica, a torrente da Onisciência tem de passar pelo
estrangulamento da válvula redutora que são o nosso cérebro e o nosso sistema nervoso.
(12)
Ou seja, toda informação existente no Universo está ao nosso
alcance. Ocorre que não temos capacidade para lidar com uma quantidade tão grande de
informação, assim a percepção é feita através de modelos. Dessa maneira, a função
do cérebro não seria captar informação, mas selecionar informação, funcionando como
um funil. Em determinadas situações essa barreira pode ser levantada, expondo o
indivíduo a uma extraordinária quantidade de informação. Huxley sugere que os
alucinógenos teriam essa capacidade.
Situação semelhantes podem ser observadas na mitologia de quase todas as
culturas. Temos um exemplo literário e ficcional no Aleph, de Borges:
Na parte inferior do degrau, à direita, vi uma pequena esfera furta-cor,
de brilho quase intolerável. Primeiro supus que fosse giratória; depois compreendi que
esse movimento era uma ilusão produzida pelos vertiginosos espetáculos que encerrava. O
diâmetro do Aleph seria de dois ou três centímetros, mas o espaço cósmico ali estava,
sem diminuição de tamanho. Cada coisa (o cristal do espelho, digamos) era infinitas
coisas, porque eu a via claramente de todos os pontos do universo.
O próprio Borges refere-se a outros mitos a respeito do assunto.
Por volta de 1867, o Cap. Burton exerceu o cargo de cônsul britânico no
Brasil; em julho de 1942, Pedro Henríquez Lheña descobriu numa biblioteca de Santos um
manuscrito seu que versava sobre o espelho que atribui o Oriente a Iskandar Zu al-Karmayn,
ou Alexandre Bircone da Macedônia. Em seu cristal refletia-se o universo inteiro. Burton
mencionava outros artifícios semelhantes - o sétuplo cálice de Kai Josru, o espelho que
Tarik Benzeyad encontrou numa torre ("Mil e Uma Noites", 272), o espelho que
Luciano de Samosata pôde examinar na Lua ("As Histórias Verdadeiras", I, 26), a
lança especular que o primeiro livro do "Satiricon", de Capela atribuiu a
Jupiter, o espelho universal de Merlin, "redondo, oco e semelhante a um mundo de
vidro" ("The Faere Queen, II, 2,19). (13)
Os instrumentos referidos acima são instrumentos caóticos, onde não se apresenta
redundância e a entropia é máxima. A multitela de Ozimandias seria uma versão
tecnológica desses instrumentos. Enquanto observa, o herói tem diante de si o mundo,
seus processos políticos, sociais e psicológicos. |
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- Notas
- (1)CALAZANS, Flávio. Propaganda
Subliminar Multimídia. São Paulo, Summus, 1992, p. 260
(2)Ibid,
p. 26
(3)Ibid,
29
(4)Ibid,
35
(5)WIENER
apud EPSTEIN, Issac. Cibernética. São Paulo, Ática, 1986, p. 60
(6)WIENER
apud Ibid, p. 60
(7)Ibid,
p. 61.
(8)Ver
introdução.
(9)A
estrategia de Ozimandias encontra eco nas idéias de Pascal quando este se refere à mente
matemática (espirit de geométrie) da mente perceptiva (espirit de finesse): "Os
matemáticos, diz ele, não vêem o que está diante deles, uma vez que se acostumaram aos
princípios exatos de sua ciência e só raciocinam após inspecionarem e darem uma
disposição a seus princípios. Perdem-se, então, nas questões de percepção, nas quais os
princípios não possibilitam tal disposição. Estas, continua Pascal, devem ser vistas de um
só golpe e não por um processo de raciocínio". EPSTEIN, op. cit., p. 64.
(10)MOORE,
op. cit. v. 6-1, p. 1
(12)MOORE,
op. cit., v. 6-1, p. 11
(13)Adous
Huxley HUXLEY, Adous. As Portas da Percepção e o Céu e O Inferno. Rio de Janeiro,
Civilização Brasileira, 1973, p. 10-11.
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