
BIG NUMBERS
Big Numbers deveria ser o trabalho definitivo de Moore sobre a teoria do caos.
A idéia era analisar as repercussões da instalação de um shopping center numa
cidadezinha do interior da Inglaterra. Infelizmente Sienkiewcz ilustrou apenas dois
números da obra. Fonte: MOORE, Alan & SIENKIEWCZ, Bill. Big Numbers.
Northampton, Mad Love, 1990.
Assim, Moore faz a pergunta: como seria um mundo sobre o qual os
super-heróis realmente caminhassem? Como eles se relacionariam com os seres humanos
normais, quais seriam suas angústias, que consequências isso teria?
Para responder a essas perguntas, Moore lançou mão de um dos
princípios da teoria do caos: o efeito borboleta. Esse conceito foi elaborado a partir da
grande dependência das condições iniciais apresentadas pelos fractais. A mundança de
um único número pode transformar completamente o formato de um desenho fractal. A mesma
regra vale para alguns eventos não lineares. Assim, o bater de asas de uma borboleta em
em Pequin pode modificar o sistema de chuvas em Nova York.
Moore transpôs o conceito para os quadrinhos. Se o bater de asas de
uma borboletas pode ter consequências tão imprevistas, image-se o surgimento de
super-heróis... Para Moore, o mundo jamais seria o mesmo.
Com a sua magnífica maxissérie em 12 edições (no Brasil foram
apenas seis!), Moore desferiu o mais virulento golpe que os super-heróis haviam sofrido
até então. O que ele fez? Ora, provou que suas histórias eram, de fato, impossíveis. No
entanto, por mais paradoxal que possa parecer, a impossibilidade não se deve aos
superpoderes. Embora inviáveis, esses dons são condição necessária do gênero e devem
ser aceito de antemão. O que Alan Moore pôs a pique - o verdadeiro absurdo das histórias
que lemos - é a ilusão de que criaturas beirando a onipotência podem existir no mundo
real sem afetar o cotidiano.(1)
Até então, os avanços tecnológicos conseguidos pelos super-heróis
não afetavam em absoluto o mundo em que viviam. Um exemplo disso são as histórias do Quarteto
Fantástico, no qual apareciam foguetes estelares e computadores capazes de criar
realidade virtual:
Todo leitor do Quarteto Fantástico sabe que Reed Richards inventou,
há cerca de oito anos, um foguete de propulsão estelar com capacidade de dobra espacial.
Pois bem, mesmo assim, nada mudou. A Terra do universo Marvel teve o mesmo desenvolvimento
histórico que a nossa, apesar de contar com um sistema de transporte que torna viagens a
Alfa Centauro quase tão simples quanto uma ida à padaria da esquina. Duro de engolir,
não?(2)
O mundo de Watchmen que, até a década de 60 era semelhante ao
nosso, transforma-se com o surgimento do primeiro herói com superpoderes de verdade:
E nada mequetrefe como escalar paredes ou força proporcional à de
uma aranha. Estamos falando de alteração estrutural da matéria, telecinésia,
manipulação do espaço-tempo continuum e muita força física. Na prática, onipotência.
Bastou o surgimento desse personagem pro mundo de Watchmen divergir inteiramente do nosso.
Os Estados Unidos venceram a Guerra do Vietnã e a Guerra Fria se encerrou com a vitória do
Ocidente ainda nos anos 60 e não na década de 90. O dia-a-dia das pessoas foi
influenciado. Entre vários prodígios científicos e tecnológicos, Manhattan também
tornou possível a produção barata de carros elétricos eficientes, decretando o fim do
motor a combustão.(3)
Essa nova perspectiva e a narrativa não-linear, repleta de flash-backs
tornaram a obra a mais revolucionária da época. Segundo Alex Ross (desenhista de Marvels),
Watchmen
mostrou que algo realmente puro e épico podia ser criado numa
narrativa em partes e com muitos personagens. Sua importância não é tão grande na
escala, e sim na sua execução e na inteligência com que foi criada. Inspirou em muito o
meu modo de pensar os super-heróis de hoje.(4)
Para Kurt Buziek (roteirista de Marvels), Watchmen "elevou
o nível do discurso porque foi muito bem-feita, pensada num patamar que os quadrinhos
ainda não tinham alcançado" (5)
O aclamado escritor de Sandman, Neil Gaiman, diz que ficou
espantado com a técnica pura da história, assim como a disposição de Alan Moore e Dave
Gibbons em não demonstrar o quanto ela era impressionante:
é que os dois não perceberam a importância da série. A estrutura
brilhante e rígida não deu espaço para mudança, e a história superou tudo. Eles
começaram contando a história definitiva dos super-heróis, mas ela ficou muito maior do
que isso. (6)
Vista sob a perspectiva dos ano 90, Watchmen destaca-se por ser
uma obra nitidamente pós-moderna. Algumas características das obras pós-modernas podem
ser facilmente encontradas na HQ. Entre elas o uso de formas gastas e da cultura de
massas. Na época em que Watchmen foi publicada, a narrativa super-heroiesca
parecia destinada ao desaparecimento.
A construção em abismo é outra característica que encaixa Watchmen
no grupo de obras pós-modernas. A história inicia com uma trama básica, a respeito de
um matador de mascarados, e, a partir dela, desmembram-se outras tramas. Como num fractal,
à medida em que nos aprofundamos, a história vai nos revelando novas complexidades.
Temos ainda o uso de personagens reais (Nixon aparece na história), o
pesadelo tecnológico (o mundo de Watchmen está à beira de uma guerra nuclear), o uso de
citações e metalinguagem (um garoto lê, em uma banca de revistas, um gibi de piratas que
pode ser considerado como uma metáfora de toda a história).(7)
Mas a principal característica pós-moderna da história parece ser a
mistura do sério com o divertido. Divertido porque Watchmen é uma história de
super-heróis e, em certo sentido, policial, e guarda muitas características desses dois
gêneros.
O caráter sério é a a discussão sobre o mundo em que vivemos, sobre
o que nos tornamos e sobre a ciência e a razão.

FROM HELL
Ao lado de Big Numbers, From Hell parece ser o trabalho de Moore que envolveu
mais pesquisa. O autor chegou a fazer um apêndice, no qual detalha a bibliografia
utilizada para produzir cada página da história. MOORE, Alan & CAMPBEL, Eddie. From
Hell, volume one. Northampton, Mad Love/ Kitchen Sink Press, 1994.
Um dos pontos-chave dessa discussão é o Dr. Manhattan que,
graças a um acidente em um laboratório, torna-se onisciente e onipresente. Sua criação
parte do princípio de que o universo é um relógio e que, sabendo-se como funcionam seus
mecanismos, é possível prever sua trajetória. Essa noção do universo como um relógio
remonta a Laplace, sendo uma promessa da filosofia das luzes do século XVIII.
Acreditava-se que a natureza seguia regras fixas que podiam ser descobertas com o uso da
razão, como no caso de um relógio. (8)Para Laplace,
Uma inteligência que conhecesse em determinado momento todas as
forças da natureza e posição de todos os seres que a compõem, que fosse suficientemente
vasta para submeter estes dados à análise matemática, poderia exprimir numa só fórmula
os movimentos dos maiores astros e dos menores átomos. Nada seria incerto para ela, e tanto
o futuro como o passado estariam diante de seu olhar.(9)
A inteligência laplaciana seria onisciente, mas impotente para
realizar alterações no mundo à sua volta. Uma vez que tudo é determinado, restaria a
ela apenas "um olhar entediado sobre o porvir, pois nada poderia ocorrer que não
tivesse previsto".(10)
A inteligência laplaciana, como uma metáfora da ciência clássica,
é representada em Watchmen pelo personagem Dr. Manhattan. Manhattan
é um ser superpoderoso, mas incapaz de tomar decisões que não estejam incluídas no
curso dos acontecimentos. À certa altura o personagem diz: "Tudo é
pré-ordenado, até minhas respostas. Todos somos marionetes, Laurie. A diferença é que
eu vejo os barbantes".(11)
Manhattan vive uma sabedoria que, ao invés de libertá-lo, torna-o
prisioneiro dos acontecimentos. Essa postura o exime de responsabilidades. Quando a Terra
está ameaçada por uma guerra nuclear, ele não se preocupa em intervir, já que tudo
está pré-ordenado. Essa noção de uma ciência isenta e objetiva remonta ao
positivismo, que acabou criando uma espécie de "religião da ciência". Segundo
Japiassu, a ciência
não conseguiu evitar expor-se aos desvios ideológicos e mitológicos. Isso
começou a ocorrer quando cientistas do século XIX (sobretudo Conte), ao saudarem a
"evolução" científica e o advento do "estado positivo", confiaram
à ciência o cuidado exclusivo de garantir, em lugar da magia, das ideologias, das
religiões e das superstições, dos saberes esotéricos e dos mitos superados, a ordem
religiosa e política.(13) |