A DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA NOS QUADRINHOS:
ANÁLISE DO CASO WATCHMEN

 

 

wbGian Danton
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O MEDO DA BOMBA

Em Miracleman, Alan Moore chama atenção para a ameaça nuclear e delineia as consequências psicológicas disso sobre as pessoas comuns. Em uma das histórias aparece um garotinho que guarda suprimentos de emergência para o caso de um conflito nuclear. Fonte: MOORE, Alan & DAVIS, Alan. Miracleman, 4. São Paulo, Tannos, 1990, p. 19.

A aventura se passa em 1997, depois de uma guerra nuclear que deixou Londres em permanente estado de sítio e dominada por um regime ditatorial e fascista, com campos de concentração onde ficam isolados os judeus, negros e homossexuais. O slogan desse governo é "Força através da pureza. Pureza através da fé".(1)

V, o personagem principal, é uma espécie de herói anarquista, culto e excêntrico. Cita Shakespeare e Goethe enquanto mata fascistas. Na história, Moore expõe suas idéias políticas, contrapondo-as ao fascismo. Não sabemos quem é V e não vemos seu rosto ,encoberto por uma máscara de teatro. Ele permanece na mente do leitor não como uma pessoa, mas como um símbolo do anarquismo.

Em uma das sequências, V transmite uma espécie de propaganda política pela TV. Enquanto vemos imagens de Hitler, Mussolini, Stalin e de bombas atômicas, lê-se:

Nós tivemos uma sucessão de malversadores, larápios e lunáticos tomando um sem números de decisões catastróficas. Isso é inegável. Mas quem os elegeu? Você! Você indicou essas pessoas. Você deu a elas poder para tomar decisões em seu lugar (...) Você encorajou esses incompetentes que transformaram sua vida profissional num inferno. Você aceitou suas ordens insensatas sem questionar. Sempre permitiu que enchessem seu espaço de trabalho com máquinas perigosas. Você podia ter detido essa gente.(2)

A preocupação de Moore com armas atômicas, apenas entrevista no trecho acima, fica óbvia na introdução que ele escreve para a obra:

Há também uma certa parcela de inexperiência política de minha parte nos capítulos antigos. Em 1981, o termo "inverno nuclear"ainda não havia passado para o cotidiano da língua e, embora meu palpite sobre as catástrofes climáticas chegasse bem perto da possível verdade, a história ainda sugere que uma guerra nuclear, mesmo limitada, poderia deixar sobreviventes. Pelo que sei atualmente, isso não é possível.(3)

V é um dos melhores exemplos do fenômeno a que se refere Paul Gravett (ver apresentação), segundo o qual os leitores jovens estariam se dirigindo aos quadrinhos para "obter notícias verdadeiras". É notório que a maioria dos jornais impressos e televisivos sonegam e distorcem informações. Grande parte dos jovens não confia nesses veículos. Soma-se a isso o fato dos jornais terem um certo ranço, que afasta os leitores mais jovens. Isso absolutamente não acontece com os quadrinhos. Num gibi espera-se encontrar terror, aventura, ficção e diversão em geral. É um veículo ideal para que o roteirista transmita sua ideologia. O problema era o conservadorismo das editoras:

durante décadas os quadrinhos britânicos não fizeram nada além de corroborar o status quo, como propaganda conformista ou escapismo juvenil (...) De fato, os editores passaram décadas notoriamente nervosos com relação a qualquer indício de controvérsia.(4)

Esse quadro mudou a partir do momento em que surgiram os grandes astros da HQ, como Bill Sienkiewcz, Alan Moore e Frank Miller, que passaram a produzir histórias direcionadas a um público mais adulto. Os quadrinhos passaram a ser considerados como arte e isso permitiu que qualquer assunto pudesse ser tratado em suas páginas. As Hqs tinham também uma vantagem sobre o cinema: a grande equipe necessária para realizar um filme e os grandes orçamentos fazem com que muitas vezes os objetivos do roteirista se diluam. Uma história em quadrinhos, como Watchmen ou V de Vingança, é muito barata em comparação com os milhões de dólares necessários para realizar um filme. A editora não arrisca muito ao investir em algo inovador. A equipe pequena (em geral um roteirista e um desenhista) também permite que os objetivos sejam menos diluídos ao longo da produção.

E, quando o jovem procura uma HQ como V de Vingança e Miracleman, o que ele encontra? Um vivo discurso anti-nuclear. O que autores como Alan Moore esperam é que esses jovens se tornem adultos menos conformistas que seus pais.

Mas Alan Moore não se limita a avisar os leitores sobre o terror atômico. Em Monstro do Pântano, ele focou sua atenção na questão ecológica.

Seus textos em Miracleman haviam chamado a atenção da editora norte-americana DC, que resolveu testá-lo em título em baixa: O Monstro do Pântano.

Moore não só impediu que a revista fosse cancelada, como a transformou em um clássico dos quadrinhos. A importância do Monstro do Pântano pode ser sentida na linha Vertigo, uma subdivisão da DC, que só publica histórias de terror no estilo das que Moore fazia com seu personagem.

A introdução que o autor faz para o primeiro número da revista revela as suas preocupações:

Enquanto crianças desaparecidas nos contemplam de embalagens de leite, anúncios do mais recente filme sobre adolescentes mortos se espalham pelo quarteirão e o vírus da AIDS penetra na sociedade com aterradora facilidade, fruto de uma onda colossal de ignorância e preconceito (...) Enquanto nuvens radiativas sopram rumo ao ocidente e tratados banindo testes se desfazem em cogumelos de fumaça venenosa.(5)

Na primeira série, Lição de Anatomia, Woodrue, o Homem Florônico, resolve se vingar dos seres humanos pelos danos causados à natureza: "Vocês travaram um guerra não declarada contra o verde, sangrando florestas tropicais, alqueire alqueire, dia após dia" (6)

Para conseguir seu intento, ele faz com que todas as plantas do mundo aumentem a quantidade de oxigênio na atmosfera: "Os primeiros a morrer serão os mais jovens e os mais velhos... os galhos novos e os tocos! Os sobreviventes terão diante de si uma atmosfera tão inflamável que, à menor fagulha, será deflagrado um inferno!"(7)

O Monstro do Pântano, que na verdade é um elemental das plantas, derrota Woodrue com um argumento lógico: "E o que... vai transformar o oxigênio... os gases... necessários para a nossa sobrevivência... quando os homens e animais morrerem?"(8)

Alan Moore usa informações e teorias científica o tempo todo em Monstro do Pântano. Já na primeira história, Woodrue tenta explicar a um general que o Monstro do Pântano não é o cientista Alec Holland, mas plantas pensando ser Holland. Para isso ele nos informa a respeito de uma experiência realizada com planárias:

Tempos atrás fizeram um experimento! Ensinaram uma planária a percorrer um labirinto simples! Educaram um verme! Depois trituraram seu corpo e deram a planárias que não sabiam percorrer o labirinto... mas, ao digerirem o colega, os vermes puderam percorrer o caminho perfeitamente! Entendeu, general? A implicação é que consciência e inteligência podem ser transmitidas como alimentos! (9)

Moore está se referindo, obviamente, às experiências realizadas por James V. McConnell, professor de psicologia da Universidade de Michigan e editor da revista The Worm Runner´s digest (que mistura humor e ciência).

James descobriu que cortando um platelminto ao meio desencadeava a reprodução assexuada do animal. O cientista, então ensinou o gusano a percorrer um labirinto e cortou-o ao meio. Os dois seres resultantes se revelaram aptos a atravessar o labirinto sem adestramento adicional. Ele descobriu também que a parte do animal que conservava melhor memória era justamente o rabo, e não a cabeça.

Na experiência seguinte, amestramos um grupo de gusanos "vítimas", cortamo-los em pedaços e os demos de comer a um grupo inocente de canibais famintos. Depois de deixar que os canibais fizesse a digestão, começamos a dar-lhes o mesmo adestramento dado antes às pobres vítimas. Com grande satisfação, comprovamos que os canibais que haviam comido vítimas educadas aprendiam muito melhor (já desde a primeira lição) que os canibais que haviam comido vítimas não-amestradas. Tínhamos conseguido a primeira transferência de informação interanimal!(10)

Em outra história, Moore faz uma retrospectiva de toda a vida na Terra, desde o período pré-cambiano até o cretáceo:

No cretáceo... quando a Terra se cansou de sáurios... apagando-os com neve... voltando sua atenção em vez disso para os macacos e cerejeiras... os guardiões não se moveram... para deter aquela mão... e deixar a era dos dinossauros continuar.(11)

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Notas
(1)ROSA, Franco. Chega às bancas "V de Vingança". Folha da Tarde, 28 de dezembro de 1990, p. 14
(2)MOORE, Alan & LLOYD, David. V de Vingança, III. São Paulo, Globo, 1990, p. 8-9
(3)MOORE, Alan. Eu dei início a V de Vingança. V de Vingança,I. São Paulo, Globo, 1989,p. 2
(4)GRAVETT, Paul. Os Gibis que derrubaram Margareth Tacher. O Estado de São Paulo, (5)Caderno 2, 28 de novembro de 1990
(6)MOORE, Alan. Introdução in Obras primas Vertigo - Monstro do Pântano. São Paulo, Metal Pesado, p. 4
(7)MOORE, Raízes in Ibid, p. 2
(8)Ibid, p. 2.
(9)Ibid, p. 14.
(10)MOORE, Lição de Anatomia in Ibid, p. 10.
(11)MCCONNELL, James. Aventuras de um cientista no mundo do humorismo in Correio da Unesco. S.d.b

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