depois. Ao sair da mina, encontrava-se
num mundo inteiramente diferente. A América que ele conhecera estava totalmente destroçada
e os americanos tinham-se tornado uma raça perseguida na sua própria terra, escondendo-se
nas densas florestas que cobriam as ruínas das cidades outrora magníficas tentando
desesperadamente preservar nos seus esconderijos secretos o que restava de sua cultura e
ciência. (1)
O editor da revista, John Dillle,
percebendo o sucesso do conto, sugeriu a Nowlan que adaptasse a história para as tiras de
jornais. Para isso, foi contratado o desenhista Richard (Dick) Calkins, que deu um tom
barroco à obra com desenhos repletos de minúncias. Na adaptação foram feitas algumas
pequenas modificações, entre elas o nome do personagem, alterado para Buck Rogers,
nome inspirado no popular cowboy do cinema, Buck Jones.
A tira tornou-se rapidamente um sucesso,
sendo, entre 1929 e 1967, traduzida para dezoito línguas e aparecendo em mais de 450
jornais.
O famoso escritor de ficção
científica, Ray Bradbury, revela que o som mais agradável de sua infância era o ruído
do jornal atirado no jardim, trazendo as páginas dominicais coloridas de Buck Rogers:
Júlio Verne foi meu pai. H. G. Wells foi
meu sábio tio. Edgar Allan Poe foi o primo com asas de morcego que guardávamos lá em cima,
na sala do sótão. Flash Gordon e Buck Rogers foram meus irmão e amigos. Aí têm minha
ascendência. (2)
Segundo Álvaro de Moya, Buck Rogers
"tinha uma equipe de cinco escritores especialistas, inclusive um metereologista,
prof. Selby Maxwell, mantendo o vivo tom pseudocientífico" . (3)
Buck Rogers é, sem sombra de dúvidas,
uma HQ de f.c. Embora na historieta os americanos vivam em florestas, expulsos das grandes
cidades pelo poderio mongol, seus cientistas criam aparatos tecnológicos avançados,
alguns deles ainda não igualados no mundo real.
Logo na terceira tira, Wilma, a heroina
da história, apresenta a Rogers uma mochila anti-gravitacional que lhe permite dar saltos
tremendos: "A mochila contém inetron e tem peso negativo! Só pesa um
ou dois quilos agora!" (4)
Marco Aurélio Luchetti lembra alguns dos
aparatos frequentes nas tiras de Buck Rogers:
Nela já temos as armas de
desintegração, as astronaves a jato, as botas magnéticas, as cidades submarinas, os
cintos voadores, o circuito fechado de televisão, a minissaia, as plataformas espaciais, o
raio laser e os robôs (5)
Em 1984, quando os primeiros astronautas
passearam no espaço sem estarem ligados à nave, Isaac Asimov lembrou-se inevitavelmente
de Buck Rogers:
Recentemente, dois astronautas flutuaram
livremente no espaço, antes de seu ônibus espacial pousar na Flórida. Eles não ficaram
ligados à espaçonave. Saíram dela e retornaram. Os mais velhos se lembrarão das
histórias em quadrinhos de Buck Rogers, nos anos 30 e 40. Tudo isso - o passeio espacial, a
espaçonave movida a foguetes, a mochila nas costas - já tinha acontecido nesses desenhos.
(6)
Aliás, já em 1929, Buck Rogers
apresentava uma solução para o deslocamento no espaço - utilizar o recuo da arma para
direcionar o deslocamento: "O recuou da minha arma permite-me deslocar-me
lateralmente", descobriu ele, maravilhado (7). Segundo Sérgio Augusto, uma
explosão atômica já aparecia em Buck Rogers seis anos antes da bomba atômica
sobre Hiroshima. (8)
O segundo herói de ficção científica
foi Brick Bradford, escrito por Willian Ritt e desenhado por Clarence Gray. Bradford
apareceu pela primeira vez na tira diária de 21 de agosto de 1933 no New York Journal:
Embora criado por Willian Ritt e Clarence Gray para
correr na mesma faixa de leitores de Buck Rogers, Brick Bradford não era um simples
decalque do herói do século XXV. Em sua cronosfera (espécie de pilão dotado de um
mecanismo semelhante ao da Time Machine de Wells), Bradford visitava mais o passado que o
futuro. Ritt, o autor, tinha fixação em antigas civilizações perdidas (viking, romana,
asteca, maia) e em comparar objetos e costumes milenares com os da sociedade
contemporânea. |
- Notas
- (1)BUCK Rogers: Quando
a B.D. Conquistou o Espaço in NOWLAN, Phil & CALKINS, Dick. Buck Rogers. Lisboa,
Futura, p. 42
- (2)BRADBURY apud
LUCHETTI, Marco Aurélio. A Ficção Científica nos Quadrinhos. São Paulo, GRD, 1991,
p. 15
- (3)MOYA, Álvaro. História
das Histórias em Quadrinhos. São Paulo, Brasiliense, 1994, p. 68
- (4)NOWLAN, op. cit, p.
3
- (5)LUCHETTI, op. cit,
p. 18
- (6)ASIMOV, Isaac. A
verdade, apenas mais lenta que a ficção. Jornal da Tarde, 10/03/84
- (7)NOWLAN op. cit. , p.
22
- (8)AUGUSTO, Sérgio.
Space Comics: um esboço histórico in MOYA, Álvaro de. SHAZAN!. São Paulo,
Perspectiva, 1977, p 189
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