Gerald Fourez explica
que
existe também, anterior a todo objeto,
uma estrutura organizada do mundo no qual se inserem objetos. É o que os sociólogos Peter
Berger & Thomas Luckman (1978) chamaram de a "construção social da
realidade" . Por isso, entendem essa organização do universo ligada a uma determinada
cultura, seja a de uma tribo de pescadores da Amazônia, seja a nossa cultura industrial, e
que situa a visão de um tal modo que cada uma das coisas pode encontrar seu lugar (ou
antes) , que determina o que serão os objetos. (1)
Portanto, o cientista deixa-se, ainda que
inconscientemente, influenciar-se pelo seu meio social. Suas teorias são sugeridas pela
arte e a visão do mundo que determina os objetos também é constantemente influenciada
pela arte.
Voltando à imaginação, ela interfere
na metodologia científica ainda em dois aspectos: na construção de modelos e nas
hipóteses.
O real jamais é apreendido exatamente
como ele é. Segundo Isaac Epstein:
A percepção e inteligibilidade são
graus sucessivos de abstração através dos quais nos damos conta da realidade. Percebemos
um objeto ou entendemos uma lei, e estes contêm sempre menos variedade ou informação do
que o estado mais desordenado do qual esse objeto ou esta lei são abstraídos. (2)
Portanto, a percepção se dá sempre
através de modelos e usamos a imaginação para condensar essa informação. Alguns
argumentariam que esse processo de criação de modelos é racional. Este é, sem dúvida,
um ponto de vista equivocado. Isso porque o processo de construção ocorre diariamente, a
todo instante, e não é um processo consciente. O tempo todo estamos construindo modelos
para perceber a realidade que nos cerca. Instada a visualizar mentalmente um pássaro,
pouquíssimas pessoas se lembrarão de um pássaro específico ou de detalhes. A maioria
se lembrará de uma silhueta voadora. E, provavelmente, ninguém se lembrará de um
pinquim. Se usássemos a razão a cada modelo que construímos, nossa percepção seria
extremamente lenta. A imaginação e os sentimentos são muito mais importantes nesse
processo.
Segundo Fourez, para observar,
é preciso sempre relacionar aquilo que
se vê com as noções que já se possuía anteriormente. Uma observação é uma
interpretação: é integrar uma certa visão na representação teórica que fazemos da
realidade (...) Para dizê-lo ainda de outro modo, observar é fornecer um modelo teórico
daquilo que se vê, utilizando as representações teóricas de que se dispunha.(3)
Depois de observar, o cientista precisa
explicar o que viu, ou antever o que não viu. Para isso ele usa as hipóteses, uma
ferramenta essencialmente imaginativa. Usemos como exemplo a paleontologia. Sendo uma
ciência que estuda animais extintos, especula-se como eles seriam a partir dos indícios
encontrados. Assim, por uma série de características dos ossos encontrados, sabe-se que
o deinonychus era um predador. Como os ossos foram encontrados numa região de floresta,
especula-se que sua pele fosse pintada para se confundir com as folhas e sombras. (4)
Já o diplodochus era herbívoro e,
portanto, não precisava ter camuflagem para caça. Por outro lado, seu tamanho afastava
os predadores. Daí especula-se que sua pele não precisaria de camuflagem
sendo, portanto, marron-escuro.
O fato de serem baseadas em evidências
científicas reais não diminui o caráter de imaginação das hipóteses. O caso da
paleontologia é exemplar porque nada realmente garante que os dinossauros eram como
imaginam os cientistas. Mas há outros exemplos. O melhor deles, talvez, se relacione com
a descoberta de Mercúrio.
O astrônomo Urbain Joseph Le Verrier
estava intrigado com perturbações na órbita de Urano. Segundo o paradígma newtoniano,
essas pertubações deveriam ser provocadas por planetas vizinhos, no caso Júpiter e
Saturno. Mas os cálculos não davam apoio a essa hipótese. Deveria haver um terceiro
agente provocando aquela pertubação:
Não importava que jamais tivesse sido observado:
deveria haver um terceiro astro causando perturbações na órbita de Urano (...)
Conhecendo qual a margem daquela perturbação que permanecia inexplicada, calcula as
características do corpo que deveria necessariamente causá-las. |