DISSERTAÇÃO DE MESTRADO DEFENDIDA NO PROGRAMA
DE PÓS-GRADUAÇÃO DA UNIVERSIDADE METODISTA DE SÃO PAULO EM NOVEMBRO DE 1997
A
DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA NOS QUADRINHOS:
ANÁLISE DO CASO WATCHMEN
Gian
Danton
Índice
INTRODUÇÃO
CAPÍTULO I :CIÊNCIA
E IMAGINAÇÃO
CAPÍTULO II:
A CIÊNCIA NOS QUADRINHOS
CAPÍTULO III:
OS AUTORES
CAPÍTULO IV: A OBRA
CAPÍTULO V: UMA IMAGEM DO CAOS
CAPÍTULO VI
: A COMPLEXIDADE EM ESCALAS
CONCLUSÃO
RESUMO
A relação história em quadrinhos/ciência
passou por várias fases distintas. Em um primeiro momento, as HQs ignoram a ciência.
Depois, com o surgimento da ficção científica nos quadrinhos, escritores e desenhistas
se esforçaram em usar a ciência e a tecnologia em suas histórias, tentando prever suas
realizações. Esse é um período marcado por muitas antecipações.. Finalmente, em
nossos dias, os quadrinistas estão divulgando uma visão crítica da ciência. Isso
representa o amadurecimento da linguagem da HQ: os quadrinistas estão tomando partido de
uma ciência ética e de paradigmas emergentes, representados pela teoria do caos.
Watchmen é, provavelmente, o melhor exemplo desse processo.
ABSTRACT
The relation between science and comics passed by some
different phases. In a first time, comics ignored science. In a second time, with the
begin of science fiction in comic stores, writers and drawers strengthen to use science
and technology, and to foresee its realization. In this moment there are a lot of
anticipations. Finally, in now a day, comics authors are divulging a criticism vision of
science. Its represent the maturation of comics language: the authors are taking
side of ethic science and new paradigm represented by chaos theory. Watchmen is, probably,
the best example of it
Para Alexandre Magno, meu filho
AGRADECIMENTOS
- Ao professor Isaac Epstein, pela paciência e sabedoria.
- A Flávio Calazans, pelos valiosos conselhos.
- A Antonio Eder Semião, pela biblioteca de Babel e pelos
desenhos.
- A Elizabeth Nunes Magno, pelo companheirismo.
- A José Aguiar, pela colaboração e pelos desenhos.
- "Não tivemos imaginação suficiente para compreender
a importância do experimento"
Enrico Fermi,
físico italiano que realizou a primeira
experiência com fissão nuclear.
apud PRAZERES, Mauro Martinez dos.
A Bomba Atômica Nazista in Limite, 3.
São Paulo, 1993, Nova Sampa, p. 26
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| APRESENTAÇÃO
Embora alguns intelectuais ainda se
deixem levar pela idéias preconceituosas cujo melhor exemplo é o doutor Frederick
Werthan (segundo o qual, os quadrinhos seriam um perigo para a sociedade), a importância
das histórias em quadrinhos está mais do que provada.
No início da década de 50, o senado
norte-americano formou um comitê para estudar a relação entre os quadrinhos e seus
leitores para saber se deveriam ser tomadas medidas contra indústria dos comics.
A pesquisa revelou dados muito curiosos,
como por exemplo:
a) cada aficcionado dos "comics" lia cerca de 15 revistas por mês; b) cada
revista vendida era lida em média por três pessoas; c) ao contrário do que se imaginava,
50% dos leitores de quadrinhos nos EUA eram adultos com mais de 20 anos de idade. (1)
As conclusões do senado americano batem
com as pesquisas de E. Robinson e Manning White que, pretendendo encontrar o tipo de
americano que não lia quadrinhos, fizeram uma pesquisa nas classes com instrução
superior, pensando encontrá-los ali:
Mas constataram o engano de pesquisar
sempre crianças e analfabetos os quais não davam senão respostas de crianças e
analfabetos (um fato sabido, mas esquecido). Encontraram nas pessoas cultas um vivo
interesse pelas histórias em quadrinhos, uma alta estima como gênero, como meio de
expressão, e uma firme oposição contra as opiniões que os condenavam totalmente. (2)
Embora o mercado dos comics tenha mudado
dos anos 50 para cá, a influência dos quadrinhos continua grande. O leitor de gibis
começa lendo Mônica, Cebolinha, Disney. Depois passa aos super-heróis na
pré-adolescência e, entre os 16/17 anos, encontra as histórias mais elaboradas e
começa a ler títulos como Sandman e as Graphic Novels.
Durante todo esse tempo, as Hqs
transmitem a esse leitor conceitos, modos de vida, visões de mundo... e informações
científicas. As estratégias de divulgação que usam os gibis apresentam grande
potencial por uma série de razões, entre elas: o preço (as Hqs são uma mídia
acessível do ponto de vista econômico. É possível produzir-se um gibi utilizando-se
apenas papel, lápis, nanquim e uma máquina xerográfica); a popularidade do meio (como
foi referido anteriormente, cada revista é lida em média por três indivíduos); a sua
linguagem cujos signos são facilmente decodificáveis por diversos tipos de pessoas de
diferentes culturas; o fato dos quadrinhos estarem já associados ao divertimento, o que
diminui a aversão que o leitor normal costuma ter a estratégias de divulgação.
Muitas vezes, os quadrinhos acabam
ganhando mais credibilidade que os órgãos de imprensa convencionais, como o que ocorreu
na Inglaterra. De acordo com Paul Gravett,
fatos como as recentes distorções dos
protestos contra a Poll Tax em Trafalgar Square, que se detiveram quase que exclusivamente a
cobrir as táticas da polícia, estão fazendo o público duvidar seriamente da
confiabilidade e independência dos meios de comunicação tradicionais. Muitos jovens
desistiram dos jornais e da TV e estão se dirigindo aos gibis - pra terem "as
notícias verdadeiras". Segundo Alan Moore, "os quadrinhos são a única fonte
confiável de informações que restou". (3)
A tese que analisaremos aqui é de que a
relação entre as histórias em quadrinhos e a ciência passou por várias fases.
Num primeiro momento as HQs desconhecem a
ciência, preocupadas que estavam em apenas divertir.
Num segundo momento os quadrinistas vão
buscar inspiração na ciência, tendo contanto com o que havia de mais avançados em
termos científicos e principalmente técnicos de sua época. Nessa época são feitas
várias antecipações.
Já numa terceira fase, essa de
maturação, os autores de quadrinhos passam a tomar partido em favor de valores éticos e
de visões de determinadas mundo. O sentido de divulgação científica alarga-se nesse
terceiro momento para a divulgação de paradigmas emergentes, influenciando as novas
gerações de cientistas e acostumando-os com os termos e teorias desse paradigma.
A favor desse segundo ponto de vista
temos o fato de que as histórias em quadrinhos alcançam um público maior e mais variado
que as publicações acadêmicos, sem ter os compromissos que aquelas sustentam, sendo,
portanto um ótimo veículo para a divulgação de novas teses. Por outro lado, se
colocarmos uma lupa sobre aqueles leitores que produzem ou irão produzir ciência,
veremos que os gibis alcançam aquele público mais jovem, que ainda não está
comprometido com a ciência normal (no sentido de Kuhn) e é, portanto, mais acessível a
novas visões de mundo.
Para responder a essas questões, faremos
uma retrospectiva histórica que procurará analisar a relação entre a ciência e os
quadrinhos. Mais à frente, usaremos a metodologia estudo de caso para pesquisar como o
tema se comporta em um caso específico - a HQ Watchmen, de Alan Moore e Dave
Gibbons, uma obra claramente inspirada em descobertas científicas, em especial a teoria
do caos.
Para cumprir esses objetivos, o trabalho
será dividido nos seguintes capítulos:
- Introdução
na qual são esclarecidos os
principais conceitos utilizados ao longo do trabalho: a noção de paradigma, as revoluções
científicas, o conceito de divulgação científica.
- Capítulo I : Ciência e Imaginação
no qual se
desenvolve a questão da relação ente ciência e imaginação, uma relação problemática
para os que advogam uma predominância do contexto da justificação. Demonstra-se que o
desenvolvimento da ciência no século passado deu ensejo à criação de um novo gênero de
ficção, ficção essa que esteve em suas origens comprometida em divulgar as idéias
daqueles grupos mais avançados da ciência da época.
- Capítulo II: A Ciência nos Quadrinhos
- Apanhado
histórico dessa relação, demonstrando de que maneira a ciência vem sendo vista pelos
quadrinistas desde que essa mídia incorporou os novos gêneros, como a aventura e a ficção
científica, na década de 30, até os dias atuais. Mostra também as situações em que as
histórias em quadrinhos anteciparam-se à ciência, prevendo avanços científicos e
técnicos.
- Capítulo III - Os Autores
- Biografia dos autores de
Watchmen, em especial de Alan Moore, o roteirista. A postura política e estética de Moore e
como isso pode ser encontrado em seus trabalhos: a preocupação com a ecologia em Monstro do
Pântano; o terror atômico em Miracleman; a geometria fractal aplicada à vida de uma
cidadezinha do interior em Big Numbers; a realidade virtual em 1963.
- Capítulo IV - A Obra
- As origens de Watchmen. O que
essa obra representou para os quadrinhos. A ciência e o cientista em Watchmen a guerra
nuclear e a advertência quanto aos aspectos potencialmente nocivos da ciência.
- Capítulo V - Uma Imagem do Caos
no qual é
demonstrado como Alan Moore utilizou elementos da geometria fractal para construir sua obra.
- Capítulo VI - A Complexidade em Escalas
- Análise de
um capítulo de Watchmen.
Conclusão na qual são amarrados alguns
dos temas desenvolvidos ao longos dos capítulos, entre eles: "As HQs se prestam à
divulgação científica e de que maneira?", "Os gibis podem despertar as
pessoas para as questões da ciência?", "Por que a ficção constantemente
antecipa mais que a ciência?" |