O
REI DO RIO DE OURO
Charles Dickens
CAPÍTULO I
Como o senhor vento sudoeste se meteu no
sistema de lavoura dos irmãos negros
Numa remota e montanhosa região
da Estíria, houve noutros tempos um vale
da maior e mais surpreendente fertilidade. Era
completamente rodeado de montanhas escarpadas
e rochosas cujos picos muito altos estavam sempre
cobertos de neve e de onde corriam em constantes
cataratas inúmeras torrentes. Uma destas
montanhas era tão alta que, quando o
sol se punha para tudo o mais - e já
em volta dominava a escuridão - ainda
os seus raios brilhavam intensamente sobre o
rio que se despenhava do seu cume, dando-lhe
o aspecto de um chuveiro de ouro. Por esse motivo
o povo daqueles sítios chamava-lhe o
Rio de Ouro.
Era estranho que nenhuma daquelas torrentes
ia cair no vale, mas todas desciam pelos outros
lados dos montes e serpenteavam através
de vastas planícies e cidades populosas.
As nuvens eram impelidas tão constantemente
para os picos cobertos de neve e ficavam tanto
tempo por sobre aquela concavidade, que, nas
épocas das grandes secas e do calor,
quando os campos próximos estavam queimados,
ainda chovia no valezinho; as suas colheitas
eram tão abundantes, e o seu feno tão
alto, e as suas maçãs tão
vermelhas, e as suas uvas tão roxas,
e o seu vinho tão rico, e o seu mel tão
doce, que era uma maravilha para quem os possuía
e todos o conheciam pelo nome de Vale do Tesouro.
|