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O LIMPADOR DE BOTAS
Charles Dickens


VirtualBooks
Formato: e-book/ PDF
Código: vbobotas987
© VirtualBooks 2003,
Idioma: português

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Trechos do livro eletrônico

O LIMPADOR DE BOTAS
Charles Dickens



Em que lugares havia estado na mocidade?, repetiu ele quando lhe formulei a pergunta. Santo Deus!, havia estado em todas as partes! E que profissões exercera? Quase todas as que se pode ser! 

Se havia visto muitas coisas? Certamente. Eu mesmo diria isso, posso assegurar, se soubesse de um vigésimo do que lhe acontecera na vida. Tanto que seria muito mais fácil para ele falar do que não vira do que aquilo que vira. Muito mais fácil. 

Qual a coisa mais curiosa que havia visto? Bem! Não sabia ao certo. Naquele instante não poderia avaliá-lo... talvez um unicórnio... que encontrara uma vez numa feira. Mas, se eu imaginasse um jovem cavalheiro de oito anos incompletos fugindo com uma bela senhorinha de sete - não seria isso um bom começo para uma história? Claro que sim. Eis que ele próprio havia visto essa história, com os olhos que Deus lhe dera, e inclusive limpara os sapatos com que eles haviam fugido, pequenos sapatos nos quais sua mão nem cabia. 

O pai de Harry Júnior vivia na casa dos Elmses, em Shooter's Hill, a seis ou sete milhas de Lunnon. Era um homem espirituoso, bem apessoado, que caminhava de cabeça erguida e tinha o que se pode chamar de eclético. Escrevia versos, montava, corria, jogava críquete, dançava, representava, tudo fazendo satisfatoriamente. Sentia-se muito orgulhoso de Harry Júnior, seu único filho, mas não o levava a se perder com mimos em excesso. Era um cavalheiro de gosto e vontade próprios, o que logo se notava. Assim, embora fosse um bom companheiro para aquele excelente menino, e gostasse de vê-lo entretido na leitura de contos de fadas, e nunca se cansasse de ouvi-lo dizer que ele era Norval, cantarolando canções infantis, mantinha a sua autoridade sobre o menino, um autêntico menino, e bom seria se todas as crianças fossem assim! 

Como sabia o limpador de botas de tudo isso? Porque havia sido o jardineiro auxiliar. Naturalmente era impossível que, na qualidade de jardineiro, indo e vindo pelo gramado, sob as janelas da casa, ceifando, varrendo, desramando, e podando, e mais isto e aquilo, não se inteirasse dos assuntos da família. Isso sem contar com o fato de que, numa manhã, Harry Júnior lhe perguntou: 

- Cobbs, de que modo escreveria a palavra "Norah", se te pedissem? 

Ato contínuo, pôs-se a escrevê-la nas ripas da cerca, com letra de forma. 

Ele não poderia dizer que tivesse dado muita atenção às crianças antes disso; mas era lindo vê-los, os dois pequenos, andando de cá para lá, profundamente enamorados. E a coragem do menino! Meu Deus, ele teria tirado o chapéu, arregaçado as mangas e avançado para um leão, se algum aparecesse para assustar sua bem amada. Uma vez, Harry Júnior, em companhia de Norah, deteve-se diante de Cobbs, que catava ervas daninhas no cascalho, e disse-lhe firmemente:

- Cobbs, gosto muito de você. 

- Verdade, senhor? Fico muito contente em ouvir isso. 

- Gosto sim, Cobbs. Porque você acha que gosto de você, Cobbs? 

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