O
GUINÉU DA COXA
Charles Dickens
O céu estava sombrio, um céu de
Dezembro e o empedrado das ruas desaparecia
debaixo da neve, aquela neve de Londres meio
derretida e lamacenta. Nunca se me varreu da
memória a recordação dessa
neve apesar de já terem passado quinze
anos sobre a última vez que a vi com
a sua triste cor. Ali a tinha, à minha
frente, com os mesmos sulcos, ocultando os mesmos
perigos para os transeuntes. Havia somente uma
hora que eu tinha chegado da América
do Sul a bordo do barco-correio de Southampton,
e agora ora estava encostado à janela
do meu quarto no hotel Morley, Charing Cross,
contemplando com ar sombrio os efeitos dos jogos
de água da praça de Trafalgar,
ora passeava agitadamente de um extremo ao outro
do aposento, fazendo esforços para me
distrair, pensando que não era um vagabundo
desterrado, mas um homem que regressava ao seu
país.
Aproximei a cadeira da chaminé e enquanto
atiçava o lume, evocava através
da chama o quadro da minha vida passada. Recordei-me
da infância que tornou extremamente desgraçada
a dependência de um tio velho e rico que
me olhava como a um obstáculo porque
não acreditava que eu pudesse vir um
dia a honrar o seu nome e os seus benefícios.
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