O
GRANDE INQUISIDOR
Fiodor Dostoiévski
- É
preciso, sob o ponto de vista literário,
que o meu poema tenha um preâmbulo. A
acção passa-se no século
XVI; bem sabes que era costume, nesta época,
fazer intervir nos poemas os poderes celestes.
Não falo de Dante(1). Em França,
os «clercs de la basoche»(2) e os
monges davam representações em
que punham em cena Nossa Senhora, os anjos,
os santos, Cristo e Deus. Eram espectáculos
ingénuos. Na Nossa Senhora de Paris,
de Vítor Hugo, o povo é convidado,
no tempo de Luís XI, em Paris, e em honra
do nascimento do Delfim, para uma representação
edificante e gratuita: O Bom Juízo da
Sagrada e Graciosa Virgem Maria. Neste mistério
aparece a própria Virgem a pronunciar
o seu «bom Juízo». No nosso
país, em Moscovo, antes de Pedro, o Grande,
davam-se, de tempos a tempos, representações
deste género, inspiradas sobretudo no
Velho Testamento. Além disso, circulava
uma grande quantidade de narrativas e de poemas
em que figuravam, segundo as necessidades, os
santos, os anjos, o exército celeste.
Nos mosteiros traduziam-se e copiavam-se estes
poemas, e compunham-se mesmo outros novos, tudo
sob a dominação dos Tártaros.
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