Lilite
Jules Lemaitre
Deitada num leito de púrpura,
a princesa Lilite, filha do rei Herodes, achava-se
imersa em graves pensamentos, enquanto a negra
Noun agitava sobre o seu rosto um leque de plumas
e o gato Astarote dormia aos seus pés.
A princesa tinha quinze anos.
Seus olhos eram profundos como uma água
de cisterna e sua boca semelhante a uma flor de
hibisco.
Pensava em sua mãe,
a rainha Mariana, que morrera quando Lilite era
ainda muito pequena. Por isto ignorava que seu
pai a matara por ciúmes, porém sabia
que ele conservava, em um quarto secreto, o corpo
da rainha embalsamado com mel e aromas, e que
a chorava ainda.
Pensava em seu pai, tão
atrabiliário e sempre enfermo. As vezes
via-o encerrar-se em sua alcova, onde soltava
gritos de pavor. É que lhe parecia rever
aqueles que mandara matar: seu cunhado Costobar,
sua mulher Mariana, seus filhos Aristóbulo
e Alexandre, irmãos de Lilite, sua sogra
Alexandra, seu filho Antí
pater, o doutor da Lei Bababem-Buta
e tantos outros.
E, ainda que Lilite
ignorasse estes fatos, seu pai inspirava-lhe terror.
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