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AVATAR
Theophile Gautier
NINGUEM podia compreender
qual a doença que ia consumindo lentamente
Otávio de Saville. Não se encontrava
acamado, conduzia vida regular, nunca um lamento
lhe saiu dos lábios; entretanto, definhava
a olhos vistos. Examinado pelos médicos,
que a solicitude dos parentes o obrigavam a consultar,
não acusava nenhum sofrimento determinado,
e a ciência não descobria sintoma
algum grave. Mas a vida afastava-se dele, fugindo
por umas dessas frestas invisíveis, de
que, segundo Terêncio, o homem está
repleto.
As vezes, uma singular síncope
o tornava branco e frio qual mármore. Durante
um minuto ou dois, passava por morto, mas logo
se reanimava, e Otávio parecia estar despertando
de um pesadelo. Fizera uma estação
de águas, viajara, mas nem mesmo sob o
belo sol de Nápoles obtivera melhores resultados,
pois, onde os "lazzaroni" seminus se
bronzeavam, Otávio sentira-se gelar.
Voltara, portanto,
ao seu apartamento da Rua São Lázaro,
e retomara, aparentemente, seus velhos hábitos.
Aquele apartamento de solteiro, mobiliado com
elegância, com todo conforto, parecia sofrer
a influência e o pensamento de quem ali
habitava, pois também era triste, apesar
do luxo que nele reinava.
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