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Em Legítima Defesa
Daniel Defoe

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Formato: e-book/ PDF
Código: bvbdefesa120
© VirtualBooks 2003,
Idioma: português

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Trechos do livro eletrônico

Em Legítima Defesa
Daniel Defoe

Certo fidalgo, senhor de uma avultada fortuna, casou com uma dama, também de bons cabedais, de quem teve um filho e uma filha apenas, após o que anos passados, ela se finou. Em breve contraiu segundas núpcias; e a segunda esposa, posto que de mais baixa condição e menores haveres que a primeira, tomou a peito aborrecer e maltratar os filhos que ele tivera da outra mulher, o que fez a desarmonia da família, tanto no que respeita às crianças como no que toca ao próprio pai.

O primeiro resultado de tal comportamento da madrasta no seio da família foi o filho, mal principiou a sentir-se homem, ter pedido ao pai que o deixasse viajar por terras estranhas. A madrasta, conquanto desejasse ver-se livre dele, como ele precisava de uma soma considerável para se manter no estrangeiro, opôs-se violentamente, fazendo com que o pai o não deixasse partir, depois de lhe ter dado autorização para isso.

Tão arreliado ficou o rapaz que, depois de haver renovado o seu pedido ao pai, com todo o respeito, quer diretamente quer por intermédio de alguns parentes, sem ter conseguido o seu intento, encorajado algum tanto por um tio, irmão da sua mãe, primeira mulher do pai, resolveu partir de casa sem licença; e se assim o pensou melhor o fez.

Por que parte do mundo viajou não me lembro; parece que o pai se manteve em contacto com ele por algum tempo e em condições de lhe fazer chegar às mãos uma razoável pensão, para sua mantença, a qual o rapaz mandava receber por meio de cartas de crédito, regularmente pagas; mas, algum tempo depois, governando a casa a madrasta, uma dessas cartas foi recusada e, depois de protestada, devolvida sem aceite; após o que, não mandou mais nenhuma nem nunca mais escreveu, e o pai nunca mais ouviu falar dele durante quatro anos, pouco mais ou menos.

Desse longo silêncio tirou a madrasta vários benefícios; primeiro começou por querer convencer o marido de que, tendo o rapaz necessariamente morrido, os bens dele deviam ser dispostos a favor do mais velho dos filhos dela (pois ela tinha vários filhos). O pai opôs-se firmemente a essa proposta, mas a mulher continuou a acossá-lo com importunações; e eram dois os argumentos contra ele, isto é, como quem diz, contra o filho.

Primeiro, se ele tivesse morrido, não havia lugar para objeções, pois o filho dela era o herdeiro legítimo.

Segundo, se ele não tivesse morrido, o seu comportamento para com o pai, a quem não escrevia há muito, era indesculpável, e este devia estar ressentido com isso, e proceder como se o filho tivesse morrido: que nada tão legitimamente o podia desobrigar e que, portanto, ele, seu pai, devia proceder como se ele, seu filho, fosse morto, e tratá-lo em conformidade, porque quem procedia assim para com o próprio pai como morto devia ser considerado quanto às suas relações filiais e ser tratado como merecia.

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