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Coéforas
Ésquilo
A tragédia
Coéforas, é aquela em que a ação se desenrola
mais teatralmente. Clitemnestra, que tinha
assassinado seu marido Agamémnon, encarrega sua
filha Electra de fazer um sacrifício expiatório
junto do túmulo do pai, para apaziguar os seus
Manes e afastar os sinistros presságios dum
sonho. Electra dirige-se ao túmulo acompanhada
pelas escravas (Coéforas) que levam os vasos e
presentes funerários e formam o Coro. Chegada
ali, invoca a sombra do Pai a quem pede que vingue
o crime de que foi vítima. De repente, vê sobre
o túmulo uma mecha de cabelos, parecidos com os
seus, que supõe serem de Orestes e faz votos pelo
seu regresso. Orestes, que se tinha escondido com
Pílado quando viu aproximar-se o grupo formado
por Electra e pelas Coéforas, aparece e os dois
irmãos combinam vingar o pai. Orestes
apresenta-se no palácio como um estrangeiro e
aproveita-se dum ardil para matar Clitemnestra e
Egisto, seu segundo marido. Aparece depois ao povo
exibindo o véu em que os assassinos tinham
envolvido Agamémnon para que não pudesse
defender-se. De súbito perde a razão e retira-se
para Delfos cujo deus lhe ordenara o matricídio.
NOTÍCIA SOBRE A TRAGÉDIA GREGA
A música e a dança constituem, desde a mais remota
antigüidade, as formas estéticas de que o homem se serviu para exteriorizar os sentimentos que não podia calar em si. Ainda o homem vivia em tribos, errando de terra em terra para conciliar as suas necessidades com os recursos espontâneos da natureza, e já o bruxo, o feiticeiro, que era ao mesmo tempo sacerdote e médico, astrólogo e conselheiro, transfigurado em demônio ou coberto de amuletos, executava as suas danças epilépticas para fazer exorcismos e sacrifícios propiciatórios.
Até mesmo entre os povos selvagens a dança desempenha uma função importante, sendo inúmeras as suas aplicações: há danças religiosas, fúnebres, terapêuticas, guerreiras, etc., — ruidosas e movimentadas, sacudidas, frenéticas, delirantes, para
excitar a compaixão dos deuses, afastar os espíritos maléficos que provocam as doenças, tornar os corpos ágeis, conforme o seu objetivo. Pode dizer-se que nenhuma cerimônia de certa monta se efetua sem a correspondente dança simbólica. Esta exige, por vezes, uma indumentária apropriada, com adornos bizarros, para que os dançarinos se tornem temidos ou admirados pela fealdade, a violência, a coragem, o vigor, a força, a agilidade, exibam os amuletos e efetuem os movimentos que o ritual impõe. Nestas grotescas representações há já, por vezes, alguma coisa de dramático, destacando-se um personagem para estabelecer diálogo com os restantes que formam uma espécie de coro. Mais tarde, a dança modifica as suas formas, estiliza as atitudes, introduz modulações suaves na primitiva vertigem dos ritmos delirantes, no paroxismo dos compassos rápidos. Quando a graciosidade e a leveza triunfam, é à mulher que cabe o papel principal. O mágico tornou-se o sacerdote que ministrava apenas os sacramentos e proferia as fórmulas ritualescas, enquanto as sacerdotisas, as bailarinas sagradas, agitando os flébeis corpos
ondulantes nas convulsões da dança, traçavam as curvas mágicas de encantamento que haviam de enredar os deuses nas suas malhas misteriosas. Era assim que as Vestais do paganismo desenvolviam temas ritualescos, com
embriagados de sonho, numa alucinação divina. E os deuses deixavam-se fascinar por aquela mímica estranha, que tinha filtros sutis. A dança realizava uma objetivação do pensamento metafísico. Era o movimento que exprimia as idéias; era o gesto que delineava formas, esculpindo posições.
Na Grécia, a forma dramática nasceu do culto de Dionisos, cujas festas se realizavam quatro vezes no ano, com grande solenidade.
Enquanto se procedia à cerimônia do sacrifício de um bode
, em honra de Dionisos, um grupo de personagens, com máscaras representativas de Pans, Sátiros e Silenos — o cortejo do deus — dançava ao redor do altar do sacrifício entoando o ditirambo — espécie de poesia coral cuja criação se atribue a Arionte e que celebrava qualquer episódio da vida de
Dionisos. (...)
C O É F O R A
S
PRIMEIRO
ATO
CENA
I
ORESTES, PÍLADO
ORESTES — Ó tu, a quem teu pai confiou a guarda dos mortos, Hermes subterrâneo, sê meu protetor e meu amparo: volto finalmente à minha pátria, após um longo exílio. Junto deste túmulo, eu invoco-te, meu pai: escuta-me! Vê estes cabelos que eu corto pela segunda vez e dos quais Inaco recebeu outrora as primícias, como prêmio do alimento que me deu na minha infância; é a ti que os consagro; são a oferenda da amargura... Que vejo eu? Quem são aquelas mulheres vestidas de luto? Que devo pensar? Alguma nova desgraça aflige este palácio? Serão libações que elas trazem para apaziguar os manes de
meu pai? Sim, sem dúvida... Ah! é Electra, é minha irmã; reconheço-a pela sua profunda tristeza. Ó Zeus, fazje que eu possa vingar a morte de meu pai! vem em meu auxílio! Pílado, retiremo-nos; observemos o fito desta cerimônia fúnebre.
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