FERDINANDO, rei
de Navarra.
BIRON, nobre da corte do rei
LONGAVILLE, nobre da corte do rei.
DUMAINE, nobre da corte do rei.
BOYET, nobre da corte da princesa.
MERCADE, nobre da corte da princesa.
DOM ADRIANO DE ARMADO, espanhol fantástico
SIR NATANIEL, cura.
HOLOFERNES, mestre-escola.
DULL, oficial de justiça.
COSTARD, bobo.
MOTH, pajem de Armado.
Um guarda-caça.
A PRINCESA DA FRANÇA.
ROSALINA, fidalga da corte da princesa.
MARIA, fidalga da corte da princesa.
CATARINA, fidalga da corte da princesa.
JAQUENETA, camponesa.
Oficiais e criados do rei e da princesa.
O parque do rei
de Navarra. Entram o rei, Biron, Longaville e
Dumaine.
REI - Possa a
Fama, que em vida todos buscam, gravar-se em
nossos túmulos de bronze e amparar-nos da Morte
perniciosa, quando, apesar da ação voraz do
Tempo, nos propiciar o esforço do presente a
honra que há de embotar-lhe o alfanje agudo e nos
fizer herdeiros incontestes de toda a Eternidade.
Por tudo isso, bravos conquistadores - sim, que o
sois, vencendo as vossas próprias afeições e a
força incalculável dos desejos que o mundo vos
desperta - por tudo isso, o nosso edito agora
publicado em todo o seu rigor será mantido.
Navarra vai tornar-se o grande assombro do mundo;
nossa corte, uma pequena academia, calma e
circunspecta no que tem relação com a arte da
vida. Vós três, Biron, Dumaine e Longaville,
jurastes que haveríeis de comigo viver aqui três
anos, quais colegas de escola, e de observar os
estatutos que se acham consignados nesta cédula.
Já o jurastes; agora assinai todos, para que a própria
mão desonre o nome do que violar qualquer destes
artigos. Se jurar e fazer é um só momento,
mostrai-vos ora fiéis ao juramento.
LONGAVILLE -
Quero ver: é jejum só de três anos; folga o espírito,
embora o corpo sofra. Ventre grande é sinal de
espírito oco; quando a gordura é muita, o senso
é pouco.
DUMAINE - Dumaine,
meu senhor, se mortifica; deixa as maneiras rústicas
dos gozos deste mundo aos escravos vis e baixos
deste mundo grosseiro. Eis o programa: morrer para
a riqueza, o amor e o viço, e na filosofia herdar
tudo isso.
BIRON - Meu caro
soberano, só me cabe repetir os protestos deles
todos, pois o jurei, de aqui estudar três anos.
Mas outras observâncias rigorosas cumpre atender
também: que não vejamos mulher alguma nesse
tempo todo, o que, penso, não foi aqui anotado;
nada comer num dia da semana e uma só refeição
fizer ao dia, o que penso, não foi aqui anotado;
depois, dormir três horas só por noite, sem
cabecear de dia um só momento e eu que nunca
pensei durante a noite e meio dia em noite
transformava - o que, penso, não foi aqui
anotado. Nessa viagem de estudos, que de abrolhos:
não ver mulher, jejuar, não pregar olhos!
REI - Jurastes
cumprir todos esses pontos.
BIRON - Perdão,
milorde; só se formos tontos. Eu só jurei que em
vossa companhia três anos cá na corte estudaria.
LONGAVILLE -
Jurastes sim, Biron, o rei não mente.
BIRON - Então
foi por brinquedo, unicamente. Se não, dizei: com
o estudo, que queremos?
REI - Ora!
aprender o que ainda não sabemos.
BIRON - O que o
senso comum pegar não pode?
REI - Sim, que o
poder de cima nos acode.