|
MEDIDA
POR MEDIDA
WILLIAM SHAKESPEARE
Personagen
VICÊNCIO, Duque.
ÂNGELO, governador durante a ausência
do duque.
ESCALO, antigo conselheiro, colega de Ângelo
no governo.
CLÁUDIO, jovem gentil-homem.
LÚCIO, tipo folgazão
Dois outros gentis-homens.
VÁRRIO, gentil-homem, servidor do duque.
PREBOSTE.
TOMÁS, monge.
PEDRO, monge.
Um juiz.
ELBOW, oficial de justiça simplório.
FROTH, gentil-homem tolo.
POMPEU, criado de mistress Overdone.
ABHORSON, carrasco.
BERNARDINO, prisioneiro dissoluto.
ISABELA, irmã de Cláudio.
MARIANA, noiva de Ângelo.
JULIETA, noiva de Cláudio.
FRANCISCA, freira.
MISTRESS OVERDONE, alcoviteira.
Senhores, oficiais, cidadãos, um pajem
e gente de serviço.
ATO I
Cena I
Quarto no palácio do duque. Entram o duque,
Escalo, nobres e criados.
DUQUE - Escalo!
ESCALO - Senhor!
DUQUE - Pretender explicar-vos
o que sejam princípios do governo, parecera
de minha parte apenas falatório carecente
de nexo, porque tenho razões para saber
que vossa ciência, neste particular, transcende
a quanto vos pudesse eu dizer. Resta-me agora,
portanto, somente isto para vossa capacidade -
sim, que a tendes muita - deixando que ela opere.
A natureza de nosso povo, as normas do Direito,
como as instituições, desta cidade
vos são tão familiares como a quantos
de meu conhecimento que a arte e a prática
hajam feito notórios. Eis as nossas instruções,
que deveis cumprir à risca. Chama, ou melhor,
vai logo dizer a Ângelo que venha aqui.
(Sai um criado.)
De que maneira credes que ele substituirá
nossa pessoa. Porque, sabei, nossa alma com carinho
muito particular o escolheu para ficar em nossa
ausência, conferindo-lhe nosso terror, vestindo-o
de bondade, provendo-o, como a nosso substituto,
de todos os recursos inerentes à nossa
força. Que pensais do caso?
ESCALO - Se há alguém
em Viena de tamanha graça e tal honra,
sem nenhuma dúvida é lorde Ângelo.
DUQUE - Vede-o. Aí
vem vindo.
(Entra Ângelo.)
ÂNGELO - Como obediente
escravo da vontade de Vossa Graça, venho
para vosso prazer ficar sabendo.
DUQUE - Ângelo, em
tua vida indícios se notam que revelam
a quem te examinar, toda tua história.
Nem tuas qualidades te pertencem, nem tu próprio
a ti mesmo, para a vida gastares só com
elas ou as virtudes contigo apenas. Faz o céu
conosco como com a luz, que a si não se
ilumina. Se nossas qualidades não saíssem
de nós, seria à justa como se elas
não existissem. Todos os adornos de uma
bela alma valem tão-somente por seus nobres
efeitos, não cedendo jamais a natureza
um só escrópulo de suas excelências,
sem que exija para si, como deusa previdente,
no jeito dos credores, não só os
juros, mas também gratidão. Estou
falando a quem conhece bem a natureza de minha
situação. Ouve, pois, Ângelo:
Sê plenamente Nós em nossa ausência.
O castigo e a demência, agora, em Viena,
só te pendem do peito e do discurso. O
velho Escalo, embora em tudo seja primeiro, é
teu segundo. Eis o mandato.
(Entrega-lho.)
ÂNGELO - Meu bondoso
senhor, é conveniente que seja posto o
meu metal à prova antes de ser impressa
nele efígie tão grande e nobre.
DUQUE - Nada de evasivas!
Depois de reflexão madura e calma foi que
vos escolhemos. Vosso título deveis, pois,
aceitar. A nossa pressa de partir é tão
viva, que somente se vê a si própria,
descurando assuntos de qualquer outra espécie.
É nosso intento dar-vos notícias,
quando concitar-nos a isso o tempo e os negócios,
esperando saber o que hajais feito. E agora, adeus.
À grata execução ora vos
deixo de nossas ordens.
|