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VIA-LÁCTEA
Olavo Bilac

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Formato:e-book/ .PDF
Código:Vbovialactea987
© VirtualBooks 2003
Disponibilidade: Grátis para você para baixar agora!
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Trechos do livro eletrônico

VIA-LÁCTEA
Olavo Bilac





I

Talvez sonhasse, quando a vi. Mas via
Que, aos raios do luar iluminada,
Entre as estrelas trêmulas subia
Uma infinita e cintilante escada.

E eu olhava-a de baixo, olhava-a... Em cada
Degrau, que o ouro mais límpido vestia,
Mudo e sereno, um anjo a harpa doirada,
Ressoante de súplicas, feria...

Tu, mãe sagrada! vós também, formosas
Ilusões! sonhos meus! Íeis por ela
Como um bando de sombras vaporosas.

E, ó meu amor! eu te buscava, quando 
Vi que no alto surgias, calma e bela, 
O olhar celeste para o meu baixando...


II


Tudo ouvirás, pois que, bondosa e pura,
Me ouves agora com melhor ouvido:
Toda a ansiedade, todo o mal sofrido
Em silêncio, na antiga desventura...

Hoje, quero, em teus braços acolhido,
Rever a estrada pavorosa e escura
Onde, ladeando o abismo da loucura,
Andei de pesadelos perseguido.

Olha-a: torce-se toda na infinita 
Volta dos sete círculos do inferno... 
E nota aquele vulto: as mãos eleva,

Tropeça, cai, soluça, arqueja, grita, 
Buscando um coração que foge, e eterno 
Ouvindo-o perto palpitar na treva.


III

Tantos esparsos vi profusamente
Pelo caminho que, a chorar, trilhava!
Tantos havia, tantos! E eu passava
Por todos eles frio e indiferente...

Enfim! enfim! pude com a mão tremente
Achar na treva aquele que buscava...
Por que fugias, quando eu te chamava,
Cego e triste, tateando, ansiosamente?

Vim de longe, seguindo de erro em erro, 
Teu fugitivo coração buscando 
E vendo apenas corações de ferro.

Pude, porém, tocá-lo soluçando...
E hoje, feliz, dentro do meu o encerro,
E ouço-o, feliz, dentro do meu pulsando.

IV

Como a floresta secular, sombria,
Virgem do passo humano e do machado,
Onde apenas, horrendo, ecoa o brado
Do tigre, e cuja agreste ramaria
Não atravessa nunca a luz do dia, 
Assim também, da luz do amor privado,
Tinhas o coração ermo e fechado, 
Como a floresta secular, sombria...

Hoje, entre os ramos, a canção sonora 
Soltam festivamente os passarinhos. 
Tinge o cimo das árvores a aurora...

Palpitam flores, estremecem ninhos... 
E o sol do amor, que não entrava outrora, 
Entra dourando a areia dos caminhos.


V

Dizem todos: "Outrora como as aves
Inquieta, como as aves tagarela,
E hoje... que tens? Que sisudez revela
Teu ar! que idéias e que modos graves!

Que tens, para que em pranto os olhos laves?
Sê mais risonha, que serás mais bela!"
Dizem. Mas no silêncio e na cautela
Ficas firme e trancada a sete chaves...

E um diz: "Tolices, nada mais!" Murmura
Outro: "Caprichos de mulher faceira!"
E todos eles afinal: "Loucura!"

Cegos que vos cansais a interrogá-la!
Vê-la bastava; que a paixão primeira
Não pela voz, mas pelos olhos fala.

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