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UMA VÉSPERA DE REIS
Artur
Azevedo
Comédia em um ato
Personagens
REIS, pai-de-família
BERMUDES, fazendeiro de Camamu
ALBERTO, estudante de medicina
JOSÉ, moleque
FRANCISCA, mulher de Reis
EMÍLIA, sua filha
UMA VIZINHA
DOIS PRETOS-MINAS, RANCHO DOS REIS, POVO, ETC.
A cena passa-se na capital da Bahia, em uma casa do Largo da Lapinha. Atualidade. Em casa de Reis. Sala de visitas. Mobília velha: mesa, cadeiras, piano de mesa. Castiçais com grandes mangas de vidro. Registros do Senhor do Bonfim. Palha Benta em um dos cantos da sala. Ao fundo, porta que deita para o corredor; à direita, duas janelas; à esquerda porta comunicando com o interior da habitação. É dia.
Cena I
JOSÉ e ALBERTO
(José está à janela, conversando com Alberto que se acha da parte de fora).
JOSÉ - Então V.S. me acha com cara de pau de cabeleira; não é assim, seu doutor?
ALBERTO - Fecho-te já a boca... (Dando-lhe dinheiro). Toma lá dois mil réis.
JOSÉ (Examinando) - Aqui só estão dez tostões... (Guarda o dinheiro).
ALBERTO - Logo dar-te-ei os outros dez. Anda! Vê um momento em que ela esteja sozinha.
JOSÉ - Não se incomode! Venha de lá um charutinho para o moleque...
ALBERTO - Eu fico à espera do assobio ali, (aponta) encostado ao chafariz...
JOSÉ - Faça favor de seu fogo. (Acende o seu charuto no de Alberto). Pode ir descansado, que o cabra é onça.
ALBERTO - Vê lá o que fazes, hein? Até logo... (Desaparece).
Cena II
JOSÉ, (desce à cena e canta) findando o trêmulo que a orquestra tem conservado desde a introdução).
COPLAS
I
Sou vivo como um azougue,
para dinheiro arranjar:
hoje não pude, no açougue,
o carniceiro enganar.
Apesar de ser moleque,
sou vivo como um senhor
doutor;
pra num bolso dar um cheque,
como eu ninguém há
por cá.
Olá!
Como eu ninguém há!
Olé!
Como eu ninguém é!
Oh!
Como eu ninguém vi!
Olô!
Ninguém é como eu sou:
Olu!
Ninguém é como tu!
II
Que me importa que se diga
qu'éstes meus modos são maus,
que sou doido de uma figa
e ando feito um dois de paus?
Se me vêem nas algibeiras
moedas a tinir.
cair!
Dou-me bem co'estas maneiras,
pois é isso o que dá (Esfrega os dedos)
pra cá! (Aponta para as algibeiras)
Olá! etc.
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