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TIL
José de Alencar
I
Capanga
Eram dois, ele e ela,
ambos na flor da beleza e da mocidade.
O viço da saúde rebentava-lhes no
encarnado das faces, mais aveludadas que a açucena
escarlate recém aberta ali com os orvalhos
da noite. No fresco sorriso dos lábios,
como nos olhos límpidos e brilhantes, brotava-lhes
a seiva d'alma.
Ela, pequena, esbelta, ligeira, buliçosa,
saltitava sobre a relva, gárrula e cintilante
do prazer de pular e correr; saciando-se na delícia
inefável de se difundir pela criação
e sentir-se flor no regaço daquela natureza
luxuriante.
Ele, alto, ágil, de talhe robusto e bem
conformado, calcando o chão sob o grosseiro
soco da bota com a bizarria de um príncipe
que pisa as ricas alfombras, seguia de perto a
gentil companheira, que folgava pelo campo, a
volutear e fazendo-lhe mil negaças, como
a borboleta que zomba dos esforços inúteis
da criança para a colher.
Caminhavam por uma recha, bordada de ilhas de
mato, que emergiam aqui e ali do verde gramado.
Pela ramagem frondente das árvores e renovos
que abrolhavam, percebia-se a proximidade de uma
grande manancial, e entre as crepitações
da brisa nas folhas, como um tom opaco desse arpejo
da solidão, ouvia-se o murmúre soturno
do Piracicaba, que leva ao Tietê o tributo
caudal de suas águas.
Sete horas da manhã haviam de ser. A luz
de um sol esplêndido fluía no éter,
que a trovoada da véspera tinha acendrado.
O céu arreava-se do azul diáfano
onde a fantasia se embebe com a voluptuosidade
casta da criança a aconchegar-se dentro,
tão dentro do grêmio materno.
Bem longe do céu, porém, e bem presos
à terra andavam os olhos dos nossos dois
amiguinhos, que nem haviam reparado sequer na
limpidez da atmosfera. Ainda estavam na sazão
feliz, em que respira o céu, como o ar
da vida, e o aroma do campo, quase sem sentir.
As flores, que a noite desabrochara; aos frutos
silvestres que enfeitavam a copa das árvores;
aos passarinhos que trinavam embalando-se nas
franças dos coqueiros; ao que era da terra
e bem da terra, iam os impulsos desses jovens
corações, quando não se volviam
um para o outro, a reverem-se entre si.
O céu, essa imensa tela azul, que foi cúpula
de um berço, o da luz, e será mais
tarde véu de um leito, o da vida; a alma
só o procura, só o contempla, quando
a dor a prostra. Mas para aquela que sorri e folga,
o firmamento é uma terra por descobrir
e debuxa-se vagamente na imaginação,
como a montanha azul desse vale de lágrimas.
Algumas vez deixava o rapaz de seguir com o passo
a menina, para acompanhá-la com a vista.
De braços cruzados sobre a coronha da clavina
de caça, fitava os grandes olhos pardos
com tal possança d'alma, que mais parecia
absorver e entranhar em si o gracioso vulto, do
que enlevar-se em sua contemplação.
Acaso, em uma dessas ocasiões, voltou-se
de chofre a menina para ver onde ficara o companheiro
e deu com ele a fitá-la daquele modo estranho.
- Que me está olhando aí? Nunca
em viu? exclamou com surpresa, mas travada sempre
da petulância que animava-lhe todos os movimentos.
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