Cælum
et terra transibunt;
Verba autem mea non transibunt.
Luc., XXI
I
Passará
o céu e a terra, mas o que dizem as minhas
palavras não passará. Com esta
notável, e não usada sentença
conclui Cristo Redentor nosso, a narração
do Evangelho que acabamos de ouvir. Diz que
há de vir julgar e pedir conta ao mundo
no último dia dele: e porque antes de
o mundo ser julgado há de ser abrasado
primeiro, e convertido em cinzas; sobre o incêndio,
que o há de consumir, cai a primeira
parte da conclusão: Cœlum et terra transibunt;
e sobre a conta que depois promete há
de tomar a todo o gênero humano, cai a
segunda: Verba autem mea non transibunt. Estes
são os dois maiores portentos, que no
teatro universal do Juízo verão
naquele dia homens e anjos. Ali se verá
o princípio do mundo junto com o fim,
e o fim junto com o princípio: o princípio
com o fim, em tudo o que passou, e o fim com
o princípio, em tudo o que não
há de passar. Parece dificultosa esta
união em tanta distância de séculos;
mas esse é, e será um dos maiores
milagres daquele dia, porque tudo o que passou,
e deixou de ser, e desapareceu com o tempo,
como se não tivera passado, ou tornara
a ser de novo, há de aparecer com a conta.