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POEMAS
IRÔNICOS, VENENOSOS E SARCÁSTICOS
Álvares de Azevedo
O poema então começa pelos últimos
crepúsculos do misticismo, brilhando sobre
a vida como a tarde sobre a terra. A poesia puríssima
banha com seu reflexo ideal a beleza sensível
e nua.
Depois a doença da
vida, que não dá ao mundo objetivo
cores tão azuladas como o nome britânico
de blue devils, descarna e injeta de fel cada
vez mais o coração. Nos mesmos lábios
onde suspirava a monodia amorosa, vem a sátira
que morde.
É assim. Depois dos
poemas épicos, Homero escreveu o poema
irônico. Goethe depois de Werther criou
o Fausto. Depois de Parisina e o Giaour, de Byron,
vem o Cain e Don Juan - Don Juan que começa
como Cain pelo amor, e acaba como ele pela descrença
venenosa e sarcástica.
Agora basta.
Ficarás tão
adiantado agora, meu leitor, como se não
lesses essas páginas, destinadas a não
ser lidas. Deus me perdoe! assim é tudo!
até os prefácios!
UM CADÁVER DE POETA
Levem ao túmulo
aquele que parece um cadáver!
Tu não pesaste sobre a terra: a terra te
seja leve!
L. Uhland
I
De tanta inspiração
e tanta vida
Que os nervos convulsivos inflamava
E ardia sem conforto.. .
O que resta? uma sombra esvaecida,
Um triste que sem mãe agonizava...
Resta um poeta morto!
Morrer! e
resvalar na sepultura,
Frias na fronte as ilusões - no peito
Quebrado o coração!
Nem saudades levar da vida impura
Onde arquejou de fome... sem um leito!
Em treva e solidão!
Tu foste como
o sol; tu parecias
Ter na aurora da vida a eternidade
Na larga fronte escrita. . .
Porém não voltarás como surgias!
Apagou se teu sol da mocidade
N'uma treva maldita!
Tua
estrela mentiu. E do fadário
De tua vida a página primeira
Na tumba se rasgou...
Pobre gênio de Deus, nem um sudário!
Nem túmulo nem cruz! como a caveira
Que um lobo devorou!. . .
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