|
PARECERES
Machado de Assis
Parecer
sobre o drama em três atos CLERMONT OU
A MULHER DO ARTISTA
Clermont ou A mulher do artista é uma dessas
banalidades literárias que constituem por
aí o repertório quase exclusivo
dos nossos teatros.
A bem dizer não é um drama, é
uma narração fria, fastidiosa, trivial,
onde a luta dos sentimentos é nula, e onde
nada existe do que pode constituir um drama.
Se a peça nada vale por si, a tradução
veio torná-la mais inferior ainda se é
possível. Não só a construção
da frase portuguesa se ressente do idioma original,
mas ainda há vocábulos disparatadamente
traduzidos. Entre outros, ocorre-me o verbo demander
- traduzido na acepção de pedir,
em vez de perguntar, que é a que cabe na
ocasião (cena 6ª do 2º ato);
e a palavra repétition - traduzida repetição,
em vez de ensaio, como convinha. E outras, e outras.
Pena é que os nossos teatros se alimentem
de composições tais, sem a menor
sombra de mérito, destinadas a perverter
o gosto e a contrariar a verdadeira missão
do teatro. Compunge deveras um tal estado de coisas
a que o governo podia e devia pôr termo
iniciando uma reforma que assinalasse ao teatro
o seu verdadeiro lugar.
Bem severo é Ulbach, bem severo é
Montégut, invectivando o teatro contemporâneo
francês, mas quanto são cabidas as
suas censuras ao nosso país, em cujo teatro
se legitimam as versões espúrias
e mal alinhavadas de quanta fraudulagem, de quanta
ruindade desonra o teatro estrangeiro!
Sinto deveras ter de dar o meu assenso a esta
composição por que entendo que contribuo
para a perversão do gosto público
e para a supressão daquelas regras que
devem presidir ao teatro de um país de
modo a torná-lo uma força de civilização.
Mas como ela não peca contra os preceitos
da nossa lei, não embaraçarei a
exibição cênica de Clermont
ou A mulher do artista, lavrando-lhe todavia condenação
literária e obrigando pelas custas autor
e tradutor.
Rio, 16 de março de 1862 Machado de Assis
Parecer sobre
a comédia FINALMENTE, em um ato,
de Antonio Moutinho de Sousa
A comédia em um ato adaptada à cena
nacional com o título de - Finalmente -
pelo Sr. Antonio Moutinho de Sousa pertence a
essa ordem de composições fáceis
e ligeiras, fundadas puramente sobre um enredo
e tendo a graça nas situações
e nos lances cômicos.
Não visando a pintura dos caracteres nem
a reprodução dos costumes, essas
peças preenchem o fim a que são
destinadas, com um mérito igual às
composições de outro gênero.
Finalmente está neste caso. A situação
do equívoco de Azevedo relativamente às
pretensões de Augusto é que dá
o relevo e a vida à comédia. O partido
a tirar foi tirado. A vivacidade com que está
escrita contribui no interesse que a composição
inspira.
Há muitas composições deste
gênero e que fazem o repertório festejado
do Palais-Royal de Paris, cuja base é o
escândalo doméstico, sem fins moralizadores,
assunto que anda agora em moda. Esta comédia
está limpa dessa gafa invasora. Ainda bem.
A frase é polida, sem segunda intenção.
Todavia o meu escrúpulo leva-me a aconselhar
a supressão de uma expressão de
Azevedo na 2ª cena. É a seguinte resposta
ao criado: "Ela disse que o alecrim havia
de me fazer bem à cabeça... amarga
zombaria!"
A frase isolada nada tem de repreensível;
mas se nos lembrarmos que Azevedo está
persuadido de que os ramalhetes de Augusto são
dirigidos a sua mulher acharemos equívoco
na expressão.
Terminando com a aprovação desta
comédia, cumpre-me dirigir ao Sr. Moutinho
um cumprimento pelo seu trabalho. Trasladou a
composição que parece ser originariamente
francesa para português cuidado e polido.
Rio, 20 de março de 1862 Machado de Assis
|