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O
VAQUEANO
Apolinário Porto-Alegre
Os
créditos da migração do livro "O
Vaqueano" do papel para a mídia eletrônica
se deve a Roberto Cohen.
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Capítulo
I
Paisagem morta
O inverno desatava
as madeixas emperladas de gelo, tão triste
que magoava o coração e despertava
idéias sombrias, como céus e e terras.
Não sei que íntima e mística
afinidade existe entre a natureza e a alma humana,
que a morte-cor de uma se reflete na outra como
em bacias de límpidas águas, que
o múrmur surdo e merencório desta,
como num tímpano, encontra ecos naquela.
O inverno é um cemitério! Sazão
de morte que não poupa a terna vergôntea,
nem as catassóis da asa do colibri! Por
isso o calafrio que se sente quando ele se aproxima,
o terror que vaga na floresta e na campina, a
palidez do manto de verduras, a ausência
dos cantores plumosos. . . e depois o minuano!
Como é cruel, ele que fustiga a árvore
secular, quee aspergia doce sombra no ardor da
sesta, até lhe arrancar uma por uma as
folhas de seu diadema! Que cresta a várzea
há pouco vicejante alfombra! que torna
a linfa de onda argentina e anodina, fria como
uma geleira, silenciosa como um ermo, ingrata
ao lábio na exsicação da
sede!
Quem pode amar-te quadra sem sombras, brisas,
cantos e flores? Período que espasma a
vida e congela a flor das alegrias?
Só quem não sente, alma embotada
para as sensações brandas e suaves,
que rodeiam a existência de uma gaza transparente
e rósea que se chama poesia!
Era no dia 14 de julho.
O sol cambava. O raio do crepúsculo, círio
que vela um ataúde, lambia a face da Terra.
Expressão de agonia, lampejo precursor
da morte, ia deitar-se o pai da natureza.
Quem então o visse diria que buscava o
leito de descanso, numa sepultura imensa como
ele próprio, às profundezas do infinito.
O cenário sobre que pairamos não
recendia menos tristeza.
Eram os campos de Vacaria.
Ao norte o rio Pelotas arquejava, descontando,
febrilmente um réquiem, ao sul o Taquari
o acompanhava em notas não menos lúgubres;
de um lado o lombro verde-negro da serra Geral,
interceptando o horizonte; do outro o Mato Português,
cuja respiração simulava o paroxismo
cruel de leviatãs que estrebucham. O teto
- o céu, cujas fímbrias eram as
brumas alvacentas de leve coloridas.
Ajuntai o efeito dos troncos quase desnudos de
roupas em pé no lusco-fusco da tarde, fantasmas
dos séculos estendendo longos e musculosos
braços para todas as direções,
sacudindo, ao sopro do pálido arrebol,
as barbas grisalhas e venerandas, ajuntai mais
o mio, ora profundo e cavernoso da onça,
ora estrídulo e agudo da jaguatirica, o
solfejo áspero e atroador do itanha, o
piar agoureiro das corujas, o bramido do minuano
que fazia ranger os estípites e galhada
da selva, que revolvia os capinzais como oceanos,
e tereis o quadro senão completo, em miniatura
ao menos.
Ali só uma realeza que contemplava outra
realeza.
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