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O
SUBTERRÂNEO DO MORRO DO CASTELO
Fabulosas Riquezas - Outros Subterrâneos
Lima Barreto
Os leitores hão de estar lembrados de que,
há tempos, publicamos uma interessante
série de artigos da lavra do nosso colaborador
Léo Junius, subordinados ao título
Os Subterrâneos do Rio de Janeiro.
Neles vinham descritas conscienciosamente e com
o carinho que sempre o autor dedicou aos assuntos
arqueológicos as galerias subterrâneas,
construídas há mais de dois séculos
pelos padres jesuítas, com o fim de ocultar
as fabulosas riquezas da comunidade, ameaçadas
de confisco pelo braço férreo do
Marquês de Pombal.
Verdade ou lenda, caso é que este fato
nos foi trazido pela tradição oral
e com tanto mais viso de exatidão quanto
nada de inverossímil nele se continha.
De feito: a ordem fundada por Inácio de
Loiola, em 1539, cedo se tornou célebre
pelas imensas riquezas que encerravam as suas
arcas, a ponto de ir tornando a pouco e pouco
uma potência financeira e política
na Europa e na América, para onde emigraram
em grande parte, fugindo às perseguições
que lhe eram movidas na França, na Rússia
e mesmo na Espanha, principal baluarte da Companhia.
Em todos estes países os bens da Ordem
de Jesus foram confiscados, não sendo pois
admirar que, expulsos os discípulos de
Loiola, em 1759, de Portugal e seus domínios
pelo fogoso ministro de D. José I, procurassem
a tempo salvaguardar os seus bens contra a lei
de exceção aplicada em outros países,
em seu prejuízo.
A hipótese, pois, de existirem no morro
do Castelo, sob as fundações do
vasto e velho convento dos jesuítas, objetos
de alto lavor artístico, em ouro e em prata,
além de moedas sem conta e uma grande biblioteca,
tomou vulto em breve, provocando o faro arqueológico
dos revolvedores de ruinarias e a auri sacra fames
de alguns capitalistas, que chegaram mesmo a se
organizar em companhia, com o fim de explorar
a empoeirada e úmida colchida dos Jesuítas.
Isto foi pelos tempos do Encilhamento.
Sucessivas escavações foram levadas
a efeito, sem êxito apreciável; um
velho, residente em Santa Teresa, prestou-se a
servir de guia aos bandeirantes da nova espécie,
sem que de todo este insano trabalho rendesse
afinal alguma coisa a mais que o pranto que derramaram
os capitalistas pelo dinheiro despendido e o eco
dos risos casquilhos de mofa, de que foram alvo
por longo tempo os novos Robérios Dias.
Estes fatos já estavam quase totalmente
esquecidos, quando ontem novamente se voltou a
atenção pública para o desgracioso
morro condenado a ruir em breve aos golpes da
picareta demolidora dos construtores da Avenida.
Anteontem, ao cair da noite, era grande a azáfama
naquele trecho das obras.
A turma de trabalhadores, em golpes isócronos
brandiam os alviões contra o terreno multissecular,
e a cada golpe, um bloco de terra negra se deslocava,
indo rolar, desfazendo-se, pelo talude natural
do terreno revolvido.
Em certo momento, o trabalhador Nelson, ao descarregar
com pulso forte a picareta sobre as últimas
pedras de um alicerce, notou com surpresa que
o terreno cedia, desobstruindo a entrada de uma
vasta galeria.
O Dr. Dutra, engenheiro a cujo cargo se acham
os trabalhos naquele local, correu a verificar
o que se passava e teve ocasião de observar
a seção reta da galeria (cerca de
1,60m de altura por 0,50m de largura).
O trabalho foi suspenso a fim de que se dessem
as providências convenientes em tão
estranho caso; uma sentinela foi colocada à
porta do subterrâneo que guarda uma grande
fortuna ou uma enorme e secular pilhéria;
e, como era natural, o Sr. Ministro da Fazenda,
que já tem habituada a pituitária
aos perfumes do dinheiro, lá compareceu,
com o Dr. Frontin e outros engenheiros, a fim,
talvez, de informar à curiosa comissão
se achava aquilo com cheiro de casa-forte... O
comparecimento de S. Exa., bem como a conferência
que hoje se deve realizar entre o Dr. Frontin
e o Dr. Lauro Muller, levam-nos a supor que nas
altas camadas se acredita na existência
de tesouros dos jesuítas no subterrâneo
do morro do Castelo.
Durante toda a tarde de ontem, crescido número
de curiosos estacionaram no local onde se havia
descoberto a entrada da galeria, numa natural
sofreguidão de saber o que de certo existe
sobre o caso.
Hoje continuarão os trabalhos, que serão
executados por uma turma especial, sob as imediatas
vistas do engenheiro da turma.
Que uma fada benfazeja conduza o Dr. Dutra no
afanoso mister de descobridor de tesouros, tornando-o
em Mascotte da avenida do Dr. Frontin.
***
A propósito da descoberta
deste subterrâneo, temos a acrescentar que,
segundo supõe o Dr. Rocha Leão,
nesta cidade existem outros subterrâneos
do mesmo gênero e de não menos importância.
Assim é que na Chácara da Floresta
deve existir um, que termina no local onde foi
o Theatro Phenix; um outro que, partindo da praia
de Santa Luzia, vai terminar num ângulo
da sacristia da Igreja Nova.
Ainda outro, partindo também de Santa Luzia,
termina num pátio, em frente à cozinha
da Santa Casa de Misericórdia, além
de outros ainda, de menor importância.
O Dr. Rocha Leão, que obteve há
tempos concessão do governo para exploração
dos chamados subterrâneos do Rio de Janeiro,
assevera mais, em carta a nós dirigida,
que na Travessa do Paço há um armazém
em ruínas, em uma de cujas reforçadas
paredes está oculta a entrada para uma
galeria que vai até os fundos da Catedral;
daí se dirige paralelamente à Rua
do Carmo até o Beco do Cotovello, onde
se bifurca e sobe pela ladeira até à
igreja.
Segundo o mesmo arqueólogo, nestes subterrâneos
se devem encontrar, além de grandes riquezas,
o arquivo da capitania do Rio de Janeiro, a opulenta
biblioteca dos padres e os mapas e roteiros das
minas do Amazonas...
Pelo que vêem, eis aí farta messe
de assunto para os amadores de literatura fantástica
e para os megalômanos, candidatos a um aposento
na Praia da Saudade.
Correio da Manhã - sábado, 29 de
abril de 1905
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