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O
SACRIFÍCIO
Franklin Távora
I
Todas as vezes que
passo pela estrada de João de Barros, no
Recife, acode-me à memória o vale
de Santarém, onde Garret deu vida e movimento
à "Menina dos Rouxinóis",
que "refletiam o viço do prado, a
frescura e animação do bosque, a
flutuação e a transparência
do mar."
Em lugar do álamo, do freixo e da faia,
que "entrelaçavam os ramos amigos";
em lugar da "congossa e dos brotos que vestem
e alcatifam o chão", no vale descrito
pelo poeta, as mangueiras formam na estrada com
suas abóbadas de folhagens sombras amenas
e deleitosas; as cajazeiras, cujos troncos se
cobrem de naturais relevos, erguem aos céus
galhos finos, guarnecidos de folhas miúdas,
que se assemelham às verdes franjas dos
templos; o jatobá solitário abre
os galhos, como abriria os braços um gigante
para lutar. Há na estrada, como no vale,
a madressilva, malva-rosa do valado. Há
moitas de cinamomos, touças de manjericões
e alecrins, que matizam o vasto chão. Há
os formosíssimos risos do prado, que penduram
dos portões ou dos muros dos sítios
ao longo das ramadas com flores, escarlates pela
manhã, arroxeadas de tarde, aveludadas
sempre e a modo de resplandecente, como se a mão
de artista insigne as houvesse polido e esmaltado
com os reflexos da aurora e as cores do sol poente.
Não deitam por ali rouxinóis desgarradas
toadas em regular desafio; os xexéus e
os sabiás, porém, com seus cantos
trazem a solidão em permanente festa; o
cajueiral tem harmonias, o laranjal intermitentes
rumores saudosos; a paisagem, horizontes verdes
e ondulantes.
Para mais realçar a suavidade do quadro,
em vez da casa antiga, onde cantavam os tais pássaros,
vê-se no fim da estrada a graciosa capela
de Nossa Senhora da Conceição, que
é o principal ornamento daquele primoroso
Éden. Através das janelas da sagrada
habitação, vozes inspiradas de elegantes
e inocentes virgens vão ressoar no vasto
arvoredo por ocasião das novenas, que os
devotos e vizinhos da Santa celebram em dezembro,
época em que a estrada aumenta de delícias,
porque os cajueiros e as jaqueiras embalsamam
com seus aromas o ambiente, e é tudo ali
alegria, florido, e tudo fala de paixões
moderadas, sem desejos desonestos.
Mas não é somente nos mimos da Natureza
que a estrada pitoresca rivaliza com o ameno vale.
Também ali se gerou um drama terníssimo,
também nela se passou uma história
de gentil suavidade e triste harmonia, que convém
se ponha por escritura nas letras do nosso idioma.
Num dos mais aprazíveis sítios,
que a espaços ornam de um e de outro lado
a estrada, morava, há coisa de seis anos,
uma senhora, viúva, idosa, sem filhos mas
com alguns meios que lhe davam para viver, tendo
em sua companhia uma irmã solteirona e
duas ou três crias da casa. No tempo em
que se passa esta verídica história,
ao número dos que em casa de D. Rosalina
viviam à conta de filhos era preciso ajuntar
um moço de vinte e dois anos de idade,
seu sobrinho, por nome de Ângelo.
Depois de graduado em Direito, deixando todo o
curso escolar, transportara-se para uma povoação
da beira-mar , ao sul da província. Morava
aí o seu pai pobre e cansado de fazer sacrifícios
para ajudar na aquisição do pergaminho,
seu encantado sonho. Ângelo tinha talento
e na Faculdade pudera ganhar nomeada de estudioso
e morigerado. Ainda me lembram as circunstâncias
em que o vi pela primeira vez. Foi por ocasião
de prestarmos os nossos primeiros exames. Ângelo
acertou de se sentar junto de mim. Era louro.
Tinha os olhos tão verdes como a muiraquitã
das amazonas. A jaqueta de pano azul, já
um tanto usada, as calças de brim pardo
com algumas escoriações na altura
dos joelhos, os sapatões, e, por cima do
trajo humilde, o gesto triste, posto que resignado,
ao lado do porte grave, mas parecendo preso, estavam
indicando que no jovem estudante havia menos um
filho, do que um enteado da fortuna.
O pai de Ângelo chamara-o para junto de
si, animado das mais risonhas esperanças,
que não deixavam de ter legítimo
fundamento. Sendo a povoação, que
ficava perto da sede da comarca, cercada de engenhos
e tendo os proprietários rurais quase particular
paixão pelos litígios sobre terras,
os quais, para assim escrevermos, constituem o
principal foro matuto, não andará
longe de acertar com o caminho da fortuna o pai
do jovem bacharel, conjeturando que muito faria
este aí pela advocacia. Mas todos os brilhantes
cálculos falharam. Quando estamos em luta
com o infortúnio, os semblantes risonhos
são máscaras traiçoeiras,
que encobrem hórridos carões; a
sorte, algumas vezes, parece sorrir para nós;
mas o que se nos afigura sorriso lisonjeiro, não
é senão o riso escarninho.
Inteiramente desiludido, o bacharel voltara ao
Recife, resoluto a tentar o que na povoação
não surtira efeito - a advocacia, já
sumamente explorada.
A casa da tia tinha para ele as portas abertas
como tinha ela o coração, e à
mesa estava ainda vazio o lugar que ocupara o
estudante.
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