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O QUE É O CASAMENTO?
José de Alencar


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Formato:e-book/ .PDF
Código:Vbocasamento987
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Trechos do livro eletrônico

O QUE É O CASAMENTO?
José de Alencar


Comédia em Quatro Atos
1861


PERSONAGENS
AUGUSTO MIRANDA, 36 anos.
HENRIQUE, 21 anos, sobrinho de MIRANDA.
SALES, 25 anos.
SIQUEIRA, 50 anos, sogro de MIRANDA.
ALVES, 33 anos, negociante.
JOAQUIM, 45 anos, preto escravo.
ISABEL, 23 anos, mulher de MIRANDA.
CLARINHA, 17 anos, prima de ISABEL.
RITA, 38 anos, parda escrava.
IAIÁ, 3 anos.

A cena é no Rio de Janeiro e Petrópolis, de 1859 a 1860.

ATO PRIMEIRO

Em casa de MIRANDA - Sala de visitas.

CENA PRIMEIRA

MIRANDA e ALVES

(ALVES entrega o cartão a JOAQUIM e espera)
MIRANDA - Lendo o teu nome, duvidei que estivéssemos em outubro.
ALVES - Como passas? Por quê?...
MIRANDA - Não é só pelo Natal que temos o prazer de ver de ano em ano o teu cartão de visitas?... Quanto à tua pessoa, essa apenas de passagem em alguma reunião.
ALVES - Tens razão! Mas acredita que sou o mesmo.
MIRANDA - Devias dar-me ocasiões de verificá-lo. Dois velhos amigos como nós sentem de tempos a tempos necessidade de conversar.
ALVES - Que queres?... A fortuna teve inveja de nos ver tão unidos, e separou-nos. Estás brilhando na política.
MIRANDA - E tu enriquecendo no comércio.
ALVES - Estás casado.
MIRANDA - Por que não fazes o mesmo? É tempo.
ALVES - Confesso-te que já me sinto gasto para esta vida de celibatário. Às vezes nem sei o que fazer de minha liberdade. Mas quando me lembro do casamento, só a idéia me assusta.
MIRANDA - Pouco a pouco te irás habituando a ela, e um belo dia, quando menos pensares, estarás casado.
ALVES - Duvido. Fazer a felicidade de duas criaturas de gênios, de ocupações, de idades diversas é um problema social que na minha opinião ainda não foi resolvido, e não me sinto com forças de o tentar.
MIRANDA - São idéias que todos temos quando profanos. O casamento, Alves, é o que foi entre nós há algum tempo a maçonaria, de que se contavam horrores, e que no fundo não passava de uma sociedade inocente, que oferecia boa palestra, boas ceias. Há dois prejuízos muito vulgares: uns supõem que o casamento é a perpetuidade do amor, a troca sem fim de carícias e protestos; e assustam-se com razão diante da perspectiva de uma ternura de todos os dias e de todas as horas.

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