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O
MOÇO LOIRO
Joaquim Manuel de Macedo
Introdução
Ce
livre
Tremble et palpite sous vos pieds.
V. Hugo
SENHORAS!
Para que nascesse O moço loiro influíram
fortemente em mim dois sentimentos nobres e profundos.
No empenho de escrever - a gratidão.
Na concepção e desenvolvimento do
romance - a esperança.
Um ano há decorrido desde que um jovem
desconhecido, sem habitações, com
fracos e limitadíssimos recursos intelectuais,
mas rico de vontade e de bons desejos; temeroso
e quase à força ofereceu à
generosidade do público do Rio de Janeiro
um pobre fruto de sua imaginação
- A moreninha - que ele amava, como filha de sua
alma. Esse jovem, senhoras, fui eu.
Fui eu, que, com meus olhos de pai, a segui em
sua perigosa vida, temendo vê-la cair a
cada instante no abismo do esquecimento... fui
eu que (talvez ainda com vaidade de pai) cheguei
a crer que o público a não enjeitava;
e, sobretudo, que minha querida filha tinha achado
corações angélicos, que,
dela se apiedando, com o talismã sagrado
de sua simpatia a levantaram mesmo muito acima
do que ela merecer podia. E esses corações,
senhoras, foram os vossos.
Oh! mas é preciso ser autor, ao menos pequenino
autor, como eu sou, para se compreender com que
imenso prazer, com que orgulho eu sonhava vossos
belos olhos pretos brasileiros, derramando os
brilhantes raios de suas vistas sobre as páginas
do meu livro! vossos lábios cor-de-rosa
docemente sorrindo-se às travessuras da
Moreninha!
E desde então eu senti que devia um eterno
voto de agradecimento a esse público, que
não enjeitara minha cara menina; e que
mais justa dedicação me prendia
aos pés dos cândidos seres, que haviam
tido compaixão de minha filha.
E, pobre como sou, convenci-me para logo que não
daria nunca um penhor dos sentimentos, que em
mim fervem, se o não fosse buscar no fundo
d'alma, colhendo minhas idéias, e delas
organizando um pensamento.
E, acreditando que me não devia envergonhar
da oferta, porque dava o que dar podia; e porque,
assim como o perfume é a expressão
da flor, o pensamento é o perfume do espírito;
eu quis escrever...
No empenho de escrever, pois, influiu em mim -
a gratidão.
Ora, o pensamento que dessas idéias pretendia
organizar era - um romance; mas, fraco e desalentado,
o que poderia exercer em mim influência
tão benigna e forte, que, mercê dela,
conseguisse eu conceber (mesmo deforme como é)
O moço loiro, e chegasse a terminá-lo?
o quê?... - a esperança.
Porque a esperança - é um alimento
- sim! o mais doce alimento do espírito!
E tudo quanto eu esperei, espero ainda.
Espero que minhas encantadoras patrícias
vejam em O moço loiro, um simples e ingênuo
tributo de gratidão a elas votado; e espero
também que o público, que outrora
me animou, e a quem muito devo, de tal tributo
se apraza; pois sei que sempre lisonjeiro lhe
é ver render cultos aos astros brilhantes
de seu claro céu, às mimosas flores
de seu ameno prado.
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